Segundo especialistas, os principais reflexos podem ocorrer nos juros americanos, com efeitos sobre o dólar , o fluxo de capitais para países emergentes e a curva de juros brasileira. Uma melhora mais consistente, porém, depende também da redução dos riscos fiscais .
Leonardo Mendes, economista e consultor financeiro da Manchester Investimentos, diz que a maior parte do resultado das eleições já estava precificada pelo mercado. Segundo o especialista, as probabilidades de vitória democrata eram elevadas, embora a intensidade da vitória tenha surpreendido.
"Além disso, o fato de termos uma eleição com resultado expressivo e sem grandes contestações representa um sinal positivo de estabilidade institucional, contribuindo para reduzir a percepção de risco político", afirma Mendes.
No Brasil, entretanto, o cenário doméstico tem influenciado muito mais os preços dos ativos do que o externo neste momento. Segundo o especialista, a deterioração das expectativas fiscais após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ( PT ) tem pesado mais sobre o dólar, a Bolsa e os juros brasileiros.
"Na minha avaliação, o principal ponto de atenção será a curva de juros, especialmente sua sensibilidade aos Treasuries americanos. É nesse canal que podemos observar os efeitos mais relevantes do novo equilíbrio político em Washington", afirma.
Com o resultado, os títulos do Tesouro americano passaram a operar em queda, movimento acompanhado pela curva de juros brasileira, que também aguardava a decisão sobre a taxa básica de juros ( Selic ). Às 17h27, os Treasuries de dez anos recuavam 0,07 ponto percentual, para 4,885%, enquanto os de 30 anos caíam 0,04 ponto, para 5,277%.
No mercado brasileiro, os contratos com vencimento em janeiro de 2028 recuavam 0,22 ponto percentual, para 14,405%, enquanto os de janeiro de 2035 caíam 0,43 ponto, para 15,050%.
Mendes afirma que os juros americanos também foram pressionados nos últimos meses pela alta do petróleo . Segundo ele, os conflitos internacionais, especialmente no Oriente Médio , levaram a commodity a subir da faixa de US$ 60 a US$ 70 para mais de US$ 100, pressionando a inflação e frustrando as expectativas de cortes pelo Fed (Federal Reserve, o banco central americano).
"Com um Congresso de oposição, pode haver maior pressão por negociações diplomáticas e uma atuação externa menos intervencionista. Se isso contribuir para reduzir os conflitos, o petróleo e a inflação americana, os juros futuros dos Estados Unidos também poderão recuar", afirma.
Para o Brasil, essa relação é relevante devido ao diferencial de juros e das operações de carry trade, estratégia em que investidores tomam empréstimos em países com juros baixos para aplicar em mercados que oferecem retornos maiores.
Além disso, o especialista diz que, com os juros americanos elevados, fica mais difícil para o BC (Banco Central) brasileiro reduzir a Selic sem ampliar as pressões sobre o câmbio e os prêmios de risco.
Tadeu Arantes, head de alocação da Ghia Multi Family Office, afirma que as eleições americanas têm impacto menos drástico sobre a política econômica do que em países emergentes, como o Brasil. Segundo ele, a maior consolidação das instituições nos Estados Unidos garante mais previsibilidade, independentemente do partido no poder.
"É diferente do Brasil, onde a composição política pode mudar completamente as perspectivas econômicas para os próximos anos e provocar movimentos substanciais nos preços dos ativos", afirma.
Para Arantes, a maioria democrata nas duas Casas do Congresso limita a capacidade de Trump de avançar sozinho em sua agenda, especialmente em propostas que dependem de aprovação legislativa, como a ampliação de gastos públicos.
Essa perspectiva de contenção fiscal, que é tema hoje em grande parte dos países do mundo, ajuda a explicar a queda dos juros futuros e do dólar nesta quarta-feira (4).
O analista diz ainda que o enfraquecimento do dólar pode favorecer mercados emergentes ao estimular investidores a buscar oportunidades fora dos EUA. Ele também diz que a derrota republicana pode levar Trump a rever sua atuação no Oriente Médio, com o desgaste provocado pela inflação .
Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital, afirma que o resultado das eleições representa uma cobrança dos eleitores à gestão Trump. Segundo ele, a inflação, as dificuldades de financiamento e o prolongamento dos conflitos contribuíram para o desgaste do governo.
Para Pletes, porém, a reação dos mercados dependerá principalmente dos efeitos das políticas econômicas sobre os indicadores, e não apenas da composição política do Congresso.
André Matos, CEO da MA7 Capital, afirma que o resultado favorece o Brasil na margem, mas não altera o cenário doméstico. Assim como outros analistas, ele diz que a expectativa de menos estímulos fiscais nos EUA tende a reduzir os juros americanos e enfraquecer o dólar globalmente.
"É um alívio externo sobre um problema interno: o que derrubou os ativos brasileiros nas últimas semanas foi a incerteza fiscal depois da nossa eleição, e isso continua sem resposta", diz o especialista.
O enfraquecimento global da moeda americana tende a favorecer o real, especialmente diante da Selic elevada, que atrai capital estrangeiro. Matos afirma, no entanto, que os fatores domésticos podem limitar essa valorização.
"Se essas dúvidas continuarem, o real tende a ficar para trás em relação a outras moedas emergentes, mesmo com o dólar mais fraco lá fora", afirma.
Na Bolsa, os especialistas dizem que um dólar mais fraco e juros americanos menores tendem a favorecer setores mais ligados à economia doméstica, como bancos, varejo e construção, que são mais sensíveis ao custo do crédito. Por outro lado, exportadoras podem ser prejudicadas pela conversão de suas receitas em dólar para reais. A queda do petróleo também pesa sobre as petroleiras.
Leonardo Mendes afirma que as small caps são outro segmento a acompanhar, por sua maior sensibilidade aos juros. Uma eventual queda da curva brasileira poderia favorecer essas empresas, mas elas também estão entre as mais expostas ao cenário fiscal doméstico.
Sobre a estratégia dos investidores, André Matos diz que ainda é cedo para mudar a carteira em resposta ao resultado eleitoral americano.
"O resultado melhora o ambiente externo, mas não muda os fundamentos do Brasil, e reagir a um único dia de mercado costuma ser um erro. O investidor deve manter a estratégia diversificada, com parte em renda fixa, que segue pagando juros reais altos, e parte em ativos no exterior como proteção contra a volatilidade do real."
Marcelo Boragini, especialista em renda variável da Davos Investimentos, também recomenda cautela ao avaliar a queda do dólar. Para ele, ainda é cedo para considerar o movimento desta quarta uma tendência duradoura.
O movimento pode ganhar sustentação se vier acompanhado de queda persistente dos juros americanos, menor pressão inflacionária e maior disposição dos investidores. Mas, no sentido contrário, inflação resistente, dados fortes de atividade econômica e novas tensões geopolíticas poderiam sustentar o dólar e reverter essa tendência.
Vitória democrata nos EUA pode favorecer mercados emergentes, mas efeito depende de cenário fiscal
O Partido Democrata conquistou a maioria nas duas Casas do Congresso americano nas eleições de meio de mandato , nos Estados Unidos . O resultado pode ter efeitos diretos sobre a política econômica do governo de Donald Trump e, dada a influência da economia am