Promessas de mais energia, imunidade, rejuvenescimento e recuperação rápida ajudam a vender infusões de vitaminas como se fossem uma extensão dos cuidados cotidianos. A apresentação é sedutora: um procedimento aparentemente simples, personalizado e capaz de entregar resultados imediatos. Mas introduzir substâncias diretamente na circulação é uma intervenção médica. Exige indicação, avaliação de riscos e demonstração de benefício.
Vitaminas são essenciais à vida. Isso não significa que doses maiores produzam mais saúde. Corrigir uma deficiência e administrar quantidades elevadas a alguém sem necessidade demonstrada são condutas diferentes. O American College of Clinical Pharmacology alerta para a falta de evidências que sustentem uma relação favorável entre benefícios e riscos das infusões comercializadas para hidratação e suplementação de rotina.
A via intravenosa tem indicações legítimas. Pode ser necessária em situações específicas de deficiência, impossibilidade de utilização adequada do trato digestivo, nutrição parenteral ou urgências clínicas. Esses cenários não justificam sua transformação em pacote periódico de manutenção da saúde. Alcançar concentrações sanguíneas mais altas não comprova, por si, resultado melhor para o paciente.
Os riscos começam no procedimento. A punção pode causar hematomas e inflamação da veia. Falhas de assepsia ou contaminação das soluções podem provocar infecções graves. Há possibilidade de reações alérgicas, inclusive anafilaxia. O volume administrado também importa: pessoas com insuficiência cardíaca ou doença renal podem apresentar sobrecarga de líquidos.
Há ainda riscos próprios das substâncias. A vitamina C intravenosa em altas doses exige atenção especial em pessoas com doença renal ou histórico de cálculos. Em pacientes com deficiência da enzima G6PD, pode provocar hemólise, a destruição de glóbulos vermelhos. Também pode interferir na leitura de determinados aparelhos de glicemia e induzir decisões terapêuticas inadequadas. A intensidade do risco depende da dose e das condições clínicas.
Outro problema é o acúmulo de exposições. Um paciente pode receber infusões e, simultaneamente, usar cápsulas, fórmulas manipuladas e outros suplementos. A avaliação precisa considerar o conjunto. O excesso de vitamina B6 pode causar neuropatia, com alterações de sensibilidade; o de vitamina D pode elevar o cálcio e comprometer os rins. Esses efeitos não são exclusivos da via venosa: mostram por que suplementação também exige controle de dose e duração.
Há também o risco de adiar um diagnóstico. Cansaço persistente merece investigação. Tratar o sintoma como deficiência presumida pode atrasar a identificação de outras doenças. Antes de oferecer uma infusão, o profissional deve explicar o diagnóstico, o benefício esperado, as alternativas e os possíveis danos.
A escolha da clínica também exige atenção. Ambiente luxuoso, divulgação nas redes sociais e depoimentos de clientes não comprovam segurança. Antes de realizar uma infusão, o paciente deve verificar se o estabelecimento possui licença sanitária, responsável técnico identificado e profissionais habilitados, além de estrutura para atender reações graves. É preciso receber informações claras sobre a composição, a procedência e a indicação das substâncias administradas. Pacotes de sessões oferecidos antes de uma avaliação individual e promessas de resultados garantidos são sinais de alerta.