O voto é a forma pacífica de resolver conflitos políticos, mesmo quando os lados são tão opostos como desta vez. Em princípio, nas democracias a urna tira de cena a força. "Em princípio" porque a democracia, em parte alguma, aboliu a violência política. Vira e mexe, ela assoma, em graus e doses variadas, como na pancadaria da polícia contra manifestantes na França ou em reações extremas dos que desaprovam o resultado. Viu-se isso nas eleições presidenciais passadas dos Estados Unidos e do Brasil.
Suprimir o adversário é uma solução que não deveria existir, mas aí está. Violência política e democracia convivem, inclusive a violência política em sua forma letal.
Da primeira posse de Lula ( PT ), em 2003, até a tentativa de golpe bolsonarista, em 2023, aconteceram ameaças, tentativas e assassinatos consumados contra políticos e ativistas. Um total de 1.228 casos, sendo os políticos 63,1% das vítimas. A incidência de assassinatos é cinco vezes maior no Norte (13,9 casos por milhão de eleitores) que no Sul (2,6) e acontece mais nos governos de direita que nos de esquerda (56,1 por ano contra 25,9 em média), segundo dados do Núcleo de Instituições Políticas e Movimentos Sociais do Cebrap .
Há culpa de Jair Bolsonaro neste cartório, mas o fenômeno acontece em todos os estados e anos.
Nos 20 anos pesquisados, o ataque ao adversário teve método e frieza. Predominou um estilo de assassinato político, o de mortes planejadas, encomendadas a um matador de aluguel (87,5% efetuadas com arma de fogo). Em regra, os envolvidos no conflito político de que resultou a violência se conheciam, mas um lado delegava o serviço de eliminação do outro a um intermediário, especialista no ofício. Uma violência política profissionalizada.
Essa é a rotina da violência política brasileira. Nas duas últimas eleições presidenciais, porém, tem sido outra coisa. Em vez da modalidade calculada e asséptica, sobressaiu uma violência política eruptiva.
Em Padre Bernardo (GO), um petista comemorava a vitória na rua, gritando "é Lula, é Lula", quando um motorista atirou . Morte instantânea. Podia ser neste ano, mas foi em 2022. O conflito agudo entre apoiadores de partidos opostos aconteceu já naquela eleição em que o Bolsonaro da cédula era o pai.