Conforme noticiado pelo Olhar Digital, a Lua passou em frente a Júpiter na segunda-feira (2), em um fenômeno chamado ocultação lunar, observável somente em algumas regiões da Terra.
Em Kuala Lumpur, na Malásia, onde já era madrugada de terça-feira (3), o astrofotógrafo Shahrin Ahmad registrou um efeito surpreendente durante o evento. Nas imagens, o planeta parece derreter ao desaparecer atrás da borda da Lua.
À plataforma de climatologia e meteorologia espacial Spaceweather.com, Ahmad relatou que fez a captura depois que uma névoa intensa, que cobria o sudeste da Ásia, finalmente se dissipou. No vídeo, à medida que a Lua avança sobre o planeta, seu contorno parece se alongar, formando uma estrutura luminosa semelhante a uma gota que escorre pela superfície lunar.
Júpiter parece derreter ao desaparecer atrás da Lua nesse registro feito durante a ocultação lunar do planeta nesta semana. A deformação é um efeito óptico conhecido como gota negra, provocado pelas limitações dos equipamentos usados na observação. – Crédito: Shahrin Ahmad via Spaceweather.com
Apesar da aparência incomum, não aconteceu nada fisicamente com Júpiter. O efeito é óptico e está relacionado às limitações dos equipamentos utilizados para observar os astros.
O que explica a aparência do gigante gasoso no vídeo?
O fenômeno registrado por Ahmad é uma manifestação do chamado efeito da gota negra (black drop effect), conhecido principalmente por aparecer durante trânsitos planetários, quando um planeta passa entre a Terra e o Sol.
De acordo com Marcelo Zurita, presidente da Associação Paraibana de Astronomia (APA), membro da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB), diretor técnico da Rede Brasileira de Observação de Meteoros (BRAMON) e colunista do Olhar Digital, nenhum equipamento óptico consegue produzir imagens com foco absolutamente perfeito. Diferenças no ponto focal de frequências como infravermelho e ultravioleta podem gerar imagens secundárias muito tênues, que normalmente passam despercebidas.
“Isso cria uma espécie de ‘fantasma’ que a gente praticamente não vê na imagem, que é muito fraca, muito tênue. Só que, como esse efeito ocorre nos dois corpos, no caso a Lua e Júpiter, quando os ‘fantasmas’ de cada um se aproximam e se sobrepõem, isso acaba criando uma bolha um pouco mais clara que alarga o objeto próximo um do outro”, explica.
O efeito ficou especialmente conhecido durante os trânsitos de Vênus no século XVIII. Como o planeta possui uma atmosfera densa, observadores da época chegaram a atribuir a deformação à presença dessa camada de gases. As observações, no entanto, também tinham um objetivo científico importante: calcular a distância entre a Terra e o Sol.
Zurita destaca que a proposta partiu do astrônomo Edmund Halley, que sugeriu utilizar a paralaxe para realizar essa medição. A iniciativa levou à organização de expedições em diferentes partes do mundo para acompanhar a passagem de Vênus. No entanto, a deformação provocada pelo efeito da gota negra dificultou a identificação dos momentos exatos em que o planeta entrava e saía do disco solar.
Animação da ocultação lunar de Júpiter apresenta três variações de tratamento de imagem: com a versão original, superexposta e subexposta. Ao aumentar o brilho, os discos do planeta e da Lua parecem crescer e ocupar mais espaço visual ao capturar áreas mais tênues que normalmente não são percebidas na imagem padrão. – Crédito: Shahrin Ahmad via Spaceweather.com
“Halley propôs a observação do trânsito de Vênus como uma forma de medir a distância entre a Terra e o Sol por paralaxe. E aí foram organizadas expedições em diferentes partes do mundo para observar esse fenômeno, e quando aconteceu, não foi possível determinar os momentos exatos da entrada e saída de Vênus do disco solar, por conta desse efeito que ficou conhecido como gota negra”, detalhou o especialista.
A hipótese de que a atmosfera de Vênus provocava a deformação perdeu força em 1999, quando a sonda TRACE (sigla em inglês para Experimento de Transição e Exploração Coronal), da NASA, observou o mesmo efeito durante um trânsito de Mercúrio pelo Sol. Como o planeta praticamente não tem atmosfera, ficou demonstrado que essa característica não era necessária para produzir o fenômeno.
Mapa mostra as regiões do planeta de onde foi possível observar a ocultação lunar de Júpiter. – Crédito: InTheSky
Onde a ocultação lunar de Júpiter pôde ser observada?
Uma ocultação lunar acontece quando a Lua passa à frente de outro corpo celeste, encobrindo-o temporariamente para quem observa da Terra. Como a posição aparente dos astros depende do local de observação, o fenômeno não pode ser acompanhado de todas as partes do planeta.
A faixa de visibilidade da ocultação lunar de Júpiter ocorrida esta semana incluiu nações insulares como Maldivas, Sri Lanka, Seychelles e Maurício, além da Ilha da Reunião, território francês no oceano Índico. Em partes do sul e sudeste da Ásia e da Oceania, a passagem ocorreu durante o dia, dificultando a observação devido à claridade do céu.
No Brasil, os astros não chegaram a se sobrepor, portanto, não houve ocultação. Mas a Lua e Júpiter apareceram bem próximos um do outro, em uma configuração chamada conjunção astronômica.
Vídeo mostra Júpiter “derretendo” atrás da Lua; entenda o fenômeno
Conforme noticiado pelo Olhar Digital, a Lua passou em frente a Júpiter na segunda-feira (2), em um fenômeno chamado ocultação lunar, observável somente em algumas regiões da Terra. Em Kuala Lumpur, na Malásia, onde já era madrugada de ter