"Vanguardah", a obra, parte do violão de Dorival Caymmi em "É Doce Morrer no Mar" para desenhar uma Salvador contemporânea, em que batidas eletrônicas se confundem com o pagodão e KL Jay, DJ dos Racionais MCs , dispara samples do grupo sobre uma base de samba-reggae. Definido pelo criador como "afro-erudito", trata-se de um álbum barroco de rap, altamente marcado pela religiosidade católica e sincrética da Bahia.
"Tem uma carga de fé muito forte. É de superação, de tudo que eu vivi", ele diz, celebrando que conseguiu colocar o sample de uma fala de Santa Dulce dos Pobres no álbum. Após o acolhimento recebido pela avó do rapper nas Obras Sociais Irmã Dulce , instituição fundada pela primeira santa do Brasil , ele se tornou um devoto dela.
Mas a fé em "Vanguardah" vai bem além da voz e da inspiração em Irmã Dulce. A capa traz imagens sacras, entre as quais uma espécie de boneco do próprio Vandal, que foram moldadas e pintadas à mão numa fábrica familiar no bairro de Valéria, em Salvador.
Na música "Avemariah", a cantora lírica Liz Reis usa vocais operísticos para pedir bênçãos às mães pretas, "que choram sangue de suas crias perdidas", por cima de tambores que remetem ao candomblé. É uma referência à conjuntura de pobreza e ameaça da criminalidade em que Vandal esteve inserido, contexto narrado por ele na faixa "Supereh".
O clima barroco é incrementado com as cordas da Orquestra Afrosinfônica, comandada pelo maestro Ubiratan Marques. Ele esteve envolvido na criação de todo o disco, assim como Russo Passapusso, vocalista do BaianaSystem , diretor musical de "Vanguardah" e amigo de Vandal —o rapper há anos é figura frequente nos trios e shows da banda.
Há samples que captam a vida cotidiana de Salvador —sons de pássaros que Vandal gravou em sua janela, sinos de igreja—, numa extensão de sua forma de criar. "Não gosto de entrar no estúdio e ficar montando quebra-cabeça de música", diz. "Entro no estúdio quando a deusa música me entrega a música."