Van Gogh teria se inspirado em céu de julho, não de junho, para a obra 'A Noite Estrelada'

A Lua minguante à direita do quadro, Vênus em tons pálidos próximo ao cipreste e a disposição das estrelas podem indicar o momento em que Vincent van Gogh (1853-1890) teria observado o céu que inspirou "A Noite Estrelada".

Por Admin ·

Van Gogh teria se inspirado em céu de julho, não de junho, para a obra 'A Noite Estrelada'

Um estudo publicado na revista Scientific Reports no último dia 22 sugere que o pintor se inspirou no céu da madrugada de 22 de julho de 1889, em Saint-Rémy-de-Provence, sul da França , onde vivia. A hipótese questiona a datação tradicional da tela, de junho.

Simulações da equipe indicam que a Lua minguante, Vênus e o aglomerado das Híades, na constelação de Touro, caberiam juntos no campo de visão que reconstruíram. O estudo é liderado pelo astrônomo Elijah Jeong-hyun Kim, doutorando na Universidade Kyung Hee ( Coreia do Sul ) e fundador da fabricante de telescópios Space Light Laboratory.

A equipe encontrou semelhanças matemáticas entre cinco pontos luminosos da tela e estrelas das Híades. O resultado diverge da hipótese proposta por Albert Boime em 1984, que identificou a constelação de Áries no céu de 19 de junho —um mês antes da data defendida pelo novo estudo.

Por volta de 18 de junho, porém, Van Gogh escreveu ao irmão Theo que fizera "um novo estudo de um céu estrelado", trecho associado à tela por historiadores. Para os autores, a carta não prova a conclusão da obra. Eles também contestam que um desenho da pintura estivesse entre os que enviou a Theo em 2 de julho. O Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), dono da tela desde 1941, e o Museu Van Gogh de Amsterdã mantêm a datação em junho.

Van Gogh pintou a tela durante sua internação voluntária no hospital psiquiátrico de Saint-Paul-de-Mausole. Meses antes, cortara parte da orelha esquerda após conflitos com Paul Gauguin (1848-1903), com quem morava em Arles. No hospital, ele alternava períodos de produção intensa e crises que o impediam de trabalhar. Historiadores situam uma crise em meados de julho de 1889, o que suscita dúvidas se ele teria condições de estudar o céu no dia 22.

Os pesquisadores, porém, sugerem que a crise teria começado no fim de julho, em vez de meados do mês. Em carta de 22 de agosto ao irmão Theo, Van Gogh contou que o episódio começara semanas antes, enquanto pintava ao ar livre num dia de vento. A equipe associou o relato a registros meteorológicos de ventos fortes entre 27 e 29 de julho, mas Kim reconhece que faltam dados e registros médicos para confirmar a hipótese.

Kim visitou Saint-Rémy duas vezes em 2019 e comparou fotografias que tirou das colinas com um desenho da mesma paisagem feito por Van Gogh. A partir dessas semelhanças, estimou o campo de visão do pintor e simulou o céu que ele poderia ter observado. A Lua minguante, Vênus e as Híades caberiam juntas nesse enquadramento em 22 de julho. "Naquele momento, pensei que seria difícil tudo aquilo ser coincidência", contou à Folha .

Donald Olson, astrônomo da Universidade Estadual do Texas (EUA), contesta a pesquisa. Ele afirma que Vênus deveria estar abaixo e à esquerda das Híades, e não apenas abaixo, como retratado na pintura. Também considera o enquadramento proposto pelos pesquisadores estreito demais para abranger todas as colinas da tela, o que põe em dúvida a reconstrução do céu de 22 de julho.

"Outros astrônomos, inclusive eu, não reconhecem as Híades e, especialmente, a estrela Aldebarã [à esquerda do cipreste, segundo o estudo] em 'A Noite Estrelada', mesmo depois de ler a teoria apresentada", afirmou Olson. Kim, por sua vez, sustenta que a posição da Lua e de Vênus, somada à semelhança entre cinco estrelas da pintura e as Híades, fundamenta sua hipótese.

Na tela, Van Gogh aplicou camadas grossas de tinta —técnica chamada impasto—, dando relevo e tridimensionalidade à pintura. A composição, inspirada na vista do hospital, inclui uma vila que ele não enxergava de sua janela, com a fina torre da igreja em contraste com o cipreste flamejante em primeiro plano. Acima, pinceladas azuis traçam redemoinhos cuja interpretação divide cientistas , em torno de estrelas enormes e de uma Lua amarela carregada de tinta.

Felipe Sevilhano Martinez, professor no Museu de Arte de São Paulo ( Masp ) e tradutor de "Cartas a Theo" (Editora 34), questiona a abordagem do estudo. Para ele, os autores "estabelecem uma divisão entre uma pintura feita da imaginação e uma coisa observada da realidade, como se Van Gogh não pudesse misturar as coisas. Misturava. E ele falava isso o tempo inteiro".

Martin Bailey, historiador da arte e autor de "Starry Night: Van Gogh at the Asylum " (Frances Lincoln), também ressalta o papel da imaginação. "Van Gogh usou a imaginação, em vez de pintar literalmente uma determinada configuração de estrelas."

Kim reconhece que a obra combina observações de várias noites, memória e imaginação, porém sustenta que a disposição dos astros veio da observação. "A disposição e a forma da Lua, de Vênus e das Híades vieram da observação, enquanto os redemoinhos, o tamanho dos pontos luminosos, as cores e a sensação transmitida pelo céu são sua expressão artística."

O céu da pintura evoca também uma dimensão religiosa, segundo Richard Thomson, da Universidade de Edimburgo e autor de "Vincent van Gogh: The Starry Night" (MoMA). Para ele, a pequena igreja sob o céu imenso sugere a natureza como criação divina, maior que a humanidade. Van Gogh, filho de pastor protestante, havia sido pregador. Em 1888, ao relatar a Theo sua "necessidade tremenda" de religião, escreveu: "Então saio à noite para pintar as estrelas".