Supondo que fosse possível burlar as coordenadas de espaço e tempo para uma festa reunindo os três, o que beberiam? Ela provavelmente estaria com um old fashioned na mão, preparado por Ryan Gosling (chamado às pressas para ser o bartender), como no filme " Amor a Toda Prova ". Conniff chegaria todo pimpão com vinho e rosas para a atriz, sacolejando-se no ritmo de "Bésame Mucho". Ela agradeceria, jogaria o buquê num sofá e voltaria a dançar, engolindo os convidados com seus olhos gigantes.
Sem perder a pose, o maestro kitsch tomaria um meia de seda ou um hi-fi, em homenagem aos bailinhos que embalou no Brasil.
Musil circularia meio perdido, atrás de Kafka ou Rilke para um papo, como nos velhos e bons cafés vienenses. Sua bebida seria certamente um spritzer e, para isso, perguntaria a Gosling se ele teria vinho branco austríaco. O ator aproveitaria para dizer: "sou fã de ‘A Montanha Mágica’", sem notar a gafe, já que o livro é de Thomas Mann.
A poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen , também aniversariante, responderia quando lhe perguntassem o que gostaria de tomar: "Ah! A harmonia e a força das coisas naturais". Ao ouvir o verso de "Reza da Manhã de Maio", o prodígio do easy listening iria ajeitar a gravata-borboleta e dizer, com objetividade estadunidense: darling, não é melhor um drinque ou dois? (Parte da letra de "Something Stupid"). Atrás dele, cinco cantoras com vestidos cor-de-rosa fariam o indispensável shabadabada.
Mas onde foi parar o desenturmado Musil? Ah, ali, ao lado de Stone, alma da festa. O que estariam conversando? Quem sabe ele tentasse explicar seu "O Homem sem Qualidades", um dos romances fundamentais do século 20? Ou dissesse: "você parece aberta às infinitas possibilidades do ser". Ela responderia como a Bella Baxter de "Pobres Criaturas": "Talvez; só sei que tô achando fascinante estar viva".