A escolha lulista —que o PT acatou, embora não preferisse nenhuma delas— foi a segunda. Nessa estratégia, o agora presidente reeleito concentrou esforços em políticas compensatórias, sem deixar de apoiar campeões empresariais nacionais. A atração de vices oriundos do grande empresariado para suas candidaturas, desde 2002, somada à expansão do Bolsa Família , ao controle da inflação e à elevação do salário mínimo acima dela, permitiu-lhe combater a miséria e a pobreza —ao mesmo tempo que consolidava seu domínio sobre o Executivo federal.
Esse sucesso o tornou também o principal líder do centro, e não apenas da esquerda, à medida que centristas tradicionais deixavam a política e novos atores disputavam com Lula a hegemonia da moderação política, acusando-o de manter um perfil à esquerda que, de fato, já não correspondia inteiramente à sua atuação. Daí o pragmatismo lulista ter incorporado também conservadores ainda moderados, por meio da distribuição de cargos e espaços no governo sem vinculação programática, ampliando os riscos de corrupção na administração pública.
Com os protestos juvenis de junho de 2013 , motivados pela qualidade dos serviços públicos —negativamente comparados aos então recém-inaugurados estádios de futebol —, ficou exposta a fragilidade republicana da democracia de 1988. O problema, porém, não foi resolvido e, logo em seguida, as insatisfações foram apropriadas por vertentes reacionárias do conservadorismo, que convergiram em torno do carisma de Jair Bolsonaro . Sua continuidade política, inclusive em sua vertente golpista, só foi contida por uma frente democrática inédita nos padrões de compromisso político do lulismo.
Nesse sentido, a reeleição de Lula já indica o papel que ele pode desempenhar na preservação da ordem democrática. Se as dificuldades eleitorais do primeiro turno evidenciaram o quanto seu governo havia sido politicamente estreito, sem valorizar efetivamente os centristas que o apoiaram em 2022, a também inédita virada eleitoral no segundo turno expressou a formulação, embora tardia, de um programa de governo. Medidas como o fim das bets, o fim da escala 6x1, as parcerias com microempreendedores individuais (MEIs) e prestadores individuais de serviços de transporte e a gratuidade dos transportes municipais ofereceram um horizonte de futuro imediato, capaz de aproximar progressistas, de esquerda ou não, e conservadores moderados.
Ao fim do terceiro mandato presidencial, Lula formulou uma agenda para o quarto, com potencial para reunir diversos segmentos do espectro político brasileiro —inclusive setores da direita alheios ao reacionarismo. Cabe-lhe, afinal, demonstrar uma generosidade ideológica compatível com o programa delineado para o novo mandato.