Trump corrói disposição de defender democracia multirracial nos EUA, diz professora americana

Durante seus estudos em direito em Harvard, nos anos 1980, Kimberlé Crenshaw foi convidada para um dos clubes exclusivos e prestigiosos da universidade. Ao chegar, descobriu que o local só aceitava que mulheres entrassem pela porta dos fundos. O colega homem q

Por Admin ·

Trump corrói disposição de defender democracia multirracial nos EUA, diz professora americana

"A solidariedade só se aplicava às coisas que nos afetassem da mesma forma", escreve ela em sua autobiografia, "Backtalker: an American memoir" (ed. Simon & Schuster, 2026, sem tradução para o português). Ele estaria disposto a defendê-la de discriminação racial, mas não de gênero.

As duas questões, para Crenshaw, eram indissociáveis: ela não era apenas mulher ou negra, mas uma intersecção das duas características. Anos depois, já como pesquisadora, ela sistematizou a sensação de desamparo daquela noite e cunhou o termo "interseccionalidade".

A ideia de que as múltiplas camadas de identidade de uma pessoa se sobrepõem e produzem opressões específicas se tornou uma das principais bases dos estudos de gênero e de políticas públicas de diversidade e inclusão.

Agora, porém, tudo isso está ruindo, diz a professora da Universidade Columbia e da UCLA (Universidade da Califórnia Los Angeles) em entrevista à Folha .

Na tentativa de criar um consenso para derrotar o governo de Donald Trump —nas eleições de meio de mandato nesta terça-feira (3) , mas também de forma geral—, a oposição tem se voltado contra grupos racializados e mulheres.

"A determinação de muitos que se consideram parte da coalizão democrata de sustentar uma democracia multirracial está sendo comprometida", afirma.

Crenshaw define a política Maga (Make America Great Again) como essencialmente racista, guiada por um sentimento de que os Estados Unidos estão sendo retirados dos brancos. "Fechar os olhos para isso, dizer que não podemos falar sobre o assunto ou que isso dificulta a construção das maiorias necessárias e, portanto, não podemos fazê-lo, significa aceitar que a sociedade continue sendo o que é", diz.

A sra. já disse que o racismo contra pessoas negras é central para a política do Donald Trump. Por quê? Um dos temas centrais que organizam tanto ressentimento e raiva, que são o combustível de grande parte da política Maga, é a ideia de que os eleitores cristãos brancos estão perdendo espaço.

O 6 de Janeiro [ataque ao Capitólio em 2021] é justificado porque estavam retomando seu país —a ideia de que a fonte da perda de seu direito de decidir são as comunidades negras e algumas latinas. Tudo é unido por um fio específico, segundo o qual aquelas pessoas não têm direito de estar onde estão, que é o "meu lugar".

Esse é um enquadramento que permite acreditar que suas violações da lei ou seu racismo são justificados. O racismo antinegro, especificamente, está na raiz dos ataques à diversidade, à equidade e à inclusão, aos direitos de voto , ao governo e ao Departamento de Educação. Ele é fundamentado na crença de que pessoas negras são menos qualificadas.

Toda a justificativa para nossa cidadania de segunda classe foi formulada em termos de nossa condição de "pessoas escravizáveis". O que fizeram conosco tornou-se uma característica essencial de quem somos. E essa parte da fundação dos Estados Unidos nunca foi realmente desconstruída. Portanto, ela continua por aí, como uma arma carregada, pronta para ser usada por pessoas como Trump e o movimento Maga.

Trump também fez do controle da imigração uma de suas principais políticas. Até que ponto essa política diz respeito à imigração em si e até que ponto está relacionada à raça e ao tipo de Estados Unidos que seu governo deseja construir? Acho que a resposta pode ser encontrada nos imigrantes que ele não quer e naqueles para os quais abriu as portas. Imigrantes sul-africanos, por exemplo, podem entrar sem apresentar uma história legítima de trauma , sem cumprir todos os requisitos tradicionais, particularmente quando solicitam asilo. Não precisam apresentar nenhuma evidência.

Enquanto isso, o presidente chamou outros imigrantes de pessoas indesejadas , vindas de "países de merda" .

Está bastante claro que, mais uma vez, trata-se de um esforço para reforçar a ideia de que os Estados Unidos são um país de pessoas brancas e que fomos longe demais tentando defender que a raça não fosse uma condição de pertencimento.

Em outros momentos de avanços de direitos civis, já houve reações conservadoras nos EUA. O momento atual é diferente? É mais forte? Se sim, por quê? Às vezes, a reação dura mais, é mais profunda e mais catastrófica do que o breve período de progresso que a antecedeu.

Veja a Reconstrução, por exemplo. Foi o período após a Guerra Civil Americana em que o governo apoiou, por um curto intervalo, o projeto de integrar as pessoas anteriormente escravizadas à cidadania. Foram aprovadas leis que garantiam direitos iguais de propriedade e de contratos, além de eliminar os obstáculos que nos impediam até mesmo de testemunhar em tribunais contra pessoas brancas. Foi criado o Freedmen's Bureau, e houve autorização para a construção de escolas.

Isso durou apenas oito anos e, então, foi derrubado. Suas consequências foram décadas de tirania racial, que duraram pelo menos 70 anos.

Essa é uma característica da nossa história: reformas modestas avançam e, em seguida, provocam uma reação contrária que não apenas dura mais, mas também aprofunda alguns dos padrões que as reformas tentavam eliminar.

Agora, talvez estejamos testemunhando uma reação à eleição do primeiro presidente negro [ Barack Obama , eleito em 2008], seguida de outra reação ao movimento popular contra a violência policial antinegra [o Black Lives Matter, iniciado em 2013].

A questão é: até que ponto as pessoas preocupadas com a democracia estão conscientes de que não estamos falando apenas de um ciclo de dois anos ou de uma eleição presidencial? Que o que está em jogo é realmente o futuro do país, pelo menos durante este século, se não em parte do próximo?