Testosterona não é whey

De uns anos para cá, um comportamento tem chamado a minha atenção: homens e mulheres saudáveis usando testosterona para definir o corpo e acelerar os resultados da academia. Alguns se referem a ela como “testo” — um apelido que sugere o uso

Por Admin ·

Testosterona não é whey

De uns anos para cá, um comportamento tem chamado a minha atenção: homens e mulheres saudáveis usando testosterona para definir o corpo e acelerar os resultados da academia. Alguns se referem a ela como “testo” — um apelido que sugere o uso de pequenas doses, como elas fossem o empurrãozinho que faltava para ganhar vantagens. Mas hormônio não é whey ou outro tipo de suplemento. E, por isso, vale um momento de atenção.

O corpo se autorregula. Nos homens, quando a testosterona chega de fora, por injeção ou gel, por exemplo, o cérebro entende que já há hormônio suficiente e pode reduzir os sinais que estimulam os testículos a fabricá-lo. Os testículos podem diminuir, e a produção de espermatozoides cai, às vezes a zero.

Nas mulheres, que também produzem testosterona, mas em quantidade bem menor, o hormônio interfere no funcionamento dos ovários e no ciclo menstrual, e pode provocar acne, aumento de pelos e queda de cabelo. Alguns efeitos, como o engrossamento da voz, podem não regredir, Em ambos os sexos, o uso sem indicação pode alterar as taxas de colesterol e sobrecarregar o coração.

Nem sempre resolve parar o uso. Em 2023, uma revisão de estudos publicada na Endocrine Connections examinou como os homens se recuperam depois do uso de testosterona em doses acima das naturais. A conclusão foi que a volta ao normal varia muito, e às vezes, demora. Isso põe em xeque a ideia de que basta interromper para que tudo volte a ser como era antes. O homem pode ficar com menos hormônio do que tinha antes, com cansaço, queda de libido e desânimo, o que empurra muitos de volta à testosterona.

Há quem precise de testosterona, com indicação e acompanhamento médico. Outra coisa é usá-la para melhorar a aparência física de um organismo saudável. Desde 2023, o Conselho Federal de Medicina proíbe sua prescrição com fins estéticos. Em 2025, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), junto com outras sociedades médicas, afirmou não haver respaldo científico para o uso em mulheres com esse objetivo. E, este ano, reforçou que a reposição em homens exige um diagnóstico confirmado de deficiência hormonal.

Por que, afinal, tanta gente aceita o risco? Não é por preguiça, até porque muitos jovens que usam testosterona treinam com afinco. O esforço é que parece não bastar. É preciso chegar lá, e rápido. As redes sociais exibem corpos impecáveis e rotinas de treino que ilusoriamente parecem caber na vida de todos, o que pode aumentar a sensação de que o resultado está sempre devendo. Acontece que muitos dos corpos que servem de régua não foram construídos só com treino, o que faz a comparação ser enganosa desde a origem. Além disso, o ganho de massa muscular tem um componente genético, o que significa que todos nós vamos ficar mais fortes, mas nem todos chegarão a ter os corpos que vemos nas redes. O ganho que se busca aparece aos poucos no espelho, quando se treina corretamente. Já os prejuízos são silenciosos, o que torna mais fácil apostar no que se vê e ignorar o que não se vê.

Esse fenômeno lembra o que vimos acontecer com estimulantes prescritos para o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Muitas pessoas sem a condição passaram a usá-lo para aumentar o foco e a produtividade no trabalho. Há uma semelhança entre os usos: gente saudável transforma um recurso terapêutico legítimo em instrumento de aperfeiçoamento, e o custo só aparece depois.

Vale o ditado: não existe almoço grátis. Exercício, sono, alimentação e descanso não entregam promessas instantâneas, mas oferecem algo mais duradouro: condições para que o corpo faça bem aquilo que ele já sabe fazer. Cuidar de si muitas vezes significa compreender seus limites, confiar mais nele e saber esperar pelos resultados.