Terra e Marte podem ter se formado de maneiras diferentes

Formar planetas é uma empreitada extrema. O processo começa com poeira e gás aglutinando-se suavemente, culminando em gigantescas rochas espaciais colidindo umas com as outras a velocidades inimagináveis até que, no fim, surgem novos mundos

Por Admin ·

Terra e Marte podem ter se formado de maneiras diferentes

Para muitos cientistas, foi dessa forma que Terra e Marte se formaram, a partir de fragmentos rochosos que orbitavam o jovem Sol há cerca de 4,5 bilhões de anos. Porém, apesar da mesma idade e, em linhas gerais, dos mesmos ingredientes básicos, o primeiro (um paraíso de biodiversidade) e o segundo (um deserto frio e irradiado) são hoje mundos muito diferentes. Isso talvez se deva, em parte, a distinções em suas raízes.

Cientistas reuniram uma série de pistas químicas encontradas nas rochas de ambos os mundos e as submeteram a uma bateria de modelos estatísticos e simulações computacionais, tentando repetidamente chegar a uma Terra e a um Marte semelhantes aos reais.

Nova pesquisa sugere diferenças nos processos de formação de Terra e Marte - Nasa

Os resultados, publicados no dia 25 do mês passado na revista Nature Astronomy , sugerem que o planeta vermelho se formou principalmente a partir de grandes objetos semelhantes a asteroides. Já a existência da Terra dependeu, em grande medida, de um enxame de seixos que se aglutinaram espontaneamente.

"Ficamos genuinamente surpresos", afirmou o cientista planetário e coautor do estudo Anders Johansen, da Universidade de Copenhague ( Dinamarca ), referindo-se à reação de sua equipe ao constatar que dois planetas vizinhos podem ter se formado de maneiras distintas.

A pesquisa também sugere que Terra e Marte se formaram a partir de uma mistura de objetos maiores e pequenas pedras, e não exclusivamente de um ou de outro.

"O artigo abre novos caminhos ao combinar esses processos em um quadro coerente", afirmou Tim Lichtenberg, líder do Laboratório de Formação de Mundos da Universidade de Groningen (Países Baixos), que não participou do novo estudo.

Os cientistas já dispunham de alguns indícios de que os dois vizinhos se formaram de maneiras diferentes —o mais evidente é que o planeta vermelho tem apenas um décimo da massa do nosso. Em geral, os cientistas atribuem o mistério da massa marciana ao surgimento de Júpiter. Este último tem uma gravidade tão intensa que pode ter capturado muitos dos blocos rochosos presentes na trajetória orbital de Marte em seu estágio embrionário e os lançado para outros lugares.

Os elementos que compõem a crosta e o manto de ambos os planetas oferecem outra pista.

Meteoritos antigos registram a composição da matéria-prima que deu origem ao Sistema Solar. Em comparação a esses objetos, Terra e Marte têm menores concentrações de elementos como sódio, potássio, lítio e zinco.

A colisão de rochas espaciais gera temperaturas muito elevadas, que tendem a vaporizar esses elementos voláteis e lançá-los no espaço. No entanto, à medida que os objetos envolvidos aumentam de tamanho, parte dos voláteis enterrados nas profundezas pode ser preservada. Objetos formados principalmente pela aglomeração suave de seixos retêm uma proporção maior de seus elementos voláteis nos estágios iniciais do processo de formação planetária.

Com base em sua mistura de elementos voláteis, Marte deve ter acumulado 73% de sua massa por meio de colisões com corpos maiores, semelhantes a asteroides, segundo a equipe de Johansen. O restante veio da captura de pequenos seixos.

Em contrapartida, afirmaram os pesquisadores, 75% da massa da Terra provavelmente veio de seixos que se aglutinaram para formar dois protoplanetas, que então colidiram entre si. Esse choque colossal foi posteriormente complementado por um bombardeio de rochas espaciais menores.

Nem todos concordam a respeito do papel que os seixos podem desempenhar na formação de planetas rochosos. Para alguns, a composição química da Terra não faz sentido sem eles, enquanto outros suspeitam que não seja possível formar Terra e Marte apenas com seixos. Além disso, especialistas frequentemente apontam Júpiter e sua gravidade como uma possível barreira que impediria a chegada de seixos vindos das regiões externas do Sistema Solar.