Imagine um investidor com 30 empresas brasileiras, concentradas em bancos, energia e commodities, e outro com dez empresas distribuídas entre diferentes setores e países. Embora o primeiro possua três vezes mais ações, o segundo pode estar menos exposto a riscos comuns. Diversificação não depende apenas da quantidade de empresas, mas de como seus riscos se relacionam.
A ideia de que comprar mais ações reduz o risco de uma carteira tem fundamento na teoria financeira. Harry Markowitz, ganhador do Prêmio Nobel de Economia, demonstrou que o risco de um conjunto de investimentos não depende apenas da volatilidade de cada ativo, mas também da correlação entre eles. Em outras palavras, importa saber quanto seus preços tendem a subir ou cair simultaneamente.
Imagine uma carteira composta por cinco bancos. Embora sejam empresas diferentes, todas podem sofrer com o aumento da inadimplência, mudanças regulatórias ou uma recessão. Acrescentar um sexto banco talvez contribua menos para a diversificação do que incluir uma empresa de outro setor, cujos resultados dependam de fatores econômicos diferentes.
Mas quantas ações seriam suficientes?
Em um estudo clássico de 1968, John Evans e Stephen Archer mostraram que boa parte da redução do risco específico acontece com as primeiras ações acrescentadas à carteira. Posteriormente, Meir Statman, em pesquisa de 1987, estimou que, sob determinadas hipóteses, carteiras com aproximadamente 30 a 40 ações poderiam oferecer uma diversificação mais adequada.
Pesquisas posteriores mostraram que o número necessário pode ser ainda maior, dependendo do mercado, do período analisado e do nível de risco que se pretende eliminar. Portanto, não existe um número mágico que transforme uma carteira em diversificada.
Vale ressaltar que essas estimativas de número de empresas se baseiam em carteiras construídas sob determinadas hipóteses, incluindo a seleção aleatória de ações, e não demonstram quantas empresas seriam necessárias em uma carteira formada por escolhas criteriosas.
Existe, entretanto, um princípio importante: os benefícios da diversificação são decrescentes. Acrescentar a segunda ação a uma carteira tende a reduzir mais o risco específico do que acrescentar a vigésima, desde que os investimentos tenham exposições comparáveis.
Isso ocorre porque a diversificação atua principalmente sobre o risco específico das empresas, como problemas de gestão, fraudes, perda de competitividade ou dificuldades financeiras. Já o risco de mercado, provocado por recessões, crises financeiras e mudanças nas condições econômicas, não desaparece simplesmente porque o investidor possui mais ações.
Durante uma crise generalizada, empresas de setores diferentes podem sofrer quedas simultâneas. Mesmo uma carteira com cinquenta ações pode registrar perdas tão expressivas quanto uma carteira concentrada em uma única empresa.
Há ainda outro problema: o número de ações pode esconder uma concentração muito maior do que parece.
Considere duas carteiras com dez empresas. Na primeira, cada ação representa 10% do patrimônio. Na segunda, uma empresa concentra 55%, enquanto as outras nove representam 5% cada.
Embora ambas possuam dez ações, seus riscos de concentração são muito diferentes. Existe uma medida chamada número efetivo de ações, calculada a partir dos pesos de cada investimento. Na primeira carteira, o resultado é dez. Na segunda, aproximadamente três.
Isso significa que, considerando exclusivamente a distribuição dos pesos, a segunda carteira apresenta concentração equivalente à de aproximadamente três posições iguais. Essa medida não considera a correlação entre os ativos nem permite, isoladamente, determinar o risco total.
A diversificação também precisa considerar os fatores econômicos aos quais as companhias estão expostas.
Um investidor pode possuir ações de empresas brasileiras de setores diferentes e, ainda assim, depender fortemente da economia nacional, dos juros domésticos, das condições fiscais e do ambiente regulatório.
Investir em empresas internacionais permite ampliar a exposição a outras economias, moedas e setores pouco representados na Bolsa brasileira. Entretanto, isso não elimina o risco de crises globais, quando mercados de diferentes países podem cair simultaneamente.
Mas existe um limite para os benefícios de acrescentar novas ações?
Diversificar demais também pode trazer problemas. Uma carteira com sessenta ou oitenta empresas exige maior esforço de acompanhamento e pode incluir posições tão pequenas que mesmo uma excelente decisão terá impacto limitado no resultado total.
Isso não significa que carteiras com muitas ações sejam necessariamente inferiores. Fundos e ETFs, por exemplo, podem administrar centenas de posições de maneira eficiente. O problema está em aumentar a quantidade de investimentos sem avaliar o benefício adicional de cada um.
Diversificar reduz o risco de estar errado, mas diversificar sem critério não aumenta as chances de estar certo.
Para quem escolhe ações individualmente, a pergunta mais importante não deveria ser quantas empresas ainda faltam para completar a carteira, mas quais riscos continuam excessivamente concentrados.
Antes de comprar mais uma ação, pergunte-se: se ocorrer uma recessão, uma alta inesperada dos juros ou uma queda das commodities, quantas empresas da minha carteira serão prejudicadas ao mesmo tempo?
Uma nova ação contribui para reduzir a dependência de determinado setor, país ou empresa? Seus resultados dependem de fatores diferentes daqueles que já influenciam os investimentos existentes? Sua inclusão justifica a complexidade adicional de acompanhamento?
Essas perguntas são mais úteis do que perseguir uma quantidade predeterminada de ações.
Por fim, é importante distinguir diversificação da carteira de ações e diversificação do patrimônio. Um investidor pode possuir quarenta empresas diferentes e, ainda assim, manter praticamente todo seu dinheiro exposto ao mercado acionário. Nesse caso, pode ter reduzido bastante o risco específico, mas continua sujeito ao risco da classe de ativos.
A quantidade adequada de ações depende, portanto, de seus pesos, de suas correlações, dos mercados representados e da capacidade do investidor de acompanhar suas escolhas. Diversificar não é ter muitas ações. É evitar que poucos riscos decidam o destino do seu patrimônio.
Ter 30 ações pode ser mais arriscado do que ter dez?
Você pode ter 30 ações na carteira e estar menos diversificado do que alguém que possui apenas dez.