Tempo redimiu 'Maria Antonieta', coroado em novo documentário

"Você prefere com babados ou sem babados?", indaga a atriz Kirsten Dunst, em cena como a monarca francesa Maria Antonieta no filme homônimo de 2006. Ela experimenta vestidos luxuosos enquanto um integrante do governo tenta resumir a situaçã

Por Admin ·

Tempo redimiu 'Maria Antonieta', coroado em novo documentário

É uma das raras exceções em que a protagonista de "Maria Antonieta ", filme de Sofia Coppola que chega aos 20 anos, verbaliza seus conflitos internos. É uma fresta de inquietação que se abre no mar de vestidos brilhantes em tons de cor-de-rosa, perucas faraônicas e docinhos impecáveis.

A cena é importante para a diretora –algo que o público fica sabendo agora, com o lançamento do documentário "Making Marie Antoinette", disponível na Mubi. Nele, a mãe de Sofia, Eleanor Coppola, mostra os bastidores do terceiro longa-metragem da filha, então com apenas 34 anos.

Ao dirigir a atriz, Sofia explica que Maria Antonieta não deve parecer boba. Ela sabe muito bem o que está acontecendo. De repente, as diretoras —mãe e filha— abrem uma nesga de vulnerabilidade para os espectadores. Sofia diz que é tratada com a mesma condescendência que a monarca francesa —e que escolhe se fazer de tonta muitas vezes. Até que chega a hora de bater o pé.

Maria Antonieta, acusada de não levar a possível guerra a sério, dispara: diante da guerra entre seu país natal e seu reino, ela é austríaca ou é a rainha da França?

Sofia era, à época, pouco experiente. Filha de Francis Ford Coppola , titã do cinema por trás de "O Poderoso Chefão", de 1972, e "Apocalypse Now", de 1979, ela cresceu entre as câmeras. Antes de tomar seu trono atrás das câmeras, chegou a fazer uma infame ponta como filha do mafioso Michael Corleone.

"Maria Antonieta" foi o primeiro filme de época de Sofia e sua maior produção. É sua produção mais cara até hoje. Antes, ela havia dirigido apenas dois longas. "As Virgens Suicidas", sua estreia, em 1999, e "Encontros e Desencontros", de 2003.

Ambos foram bem recebidos pela crítica. O primeiro fez sucesso no festival americano Sundance, uma das mecas do cinema cult no hemisfério norte, e o segundo arrematou prêmios importantes —três Globo de Ouro e um Oscar.

O terceiro longa porém, foi recebido com ressalvas pela crítica. Na exibição em Cannes, em 2006, foi vaiado. Algumas de suas escolhas estéticas —a trilha contemporânea de bandas como New Order, The Strokes e Aphex Twin ou uma cena em que um tênis All Star aparece misturado aos sapatos do século 18 — foram questionadas.

Eleanor, morta em 2024, acompanhou as gravações extenuantes do filme, que duraram pouco menos de dois meses. Com uma câmera estacionada no ombro, ela percorreu os corredores do Palácio de Versalhes, na França, e registrou minúcias dos bastidores.

A empreitada de Sofia foi grandiosa. No documentário, a cineasta aparece exausta, correndo para dar conta de um cronograma que não levou em consideração as laboriosas trocas de roupas, perucas e maquiagens.

As flores usadas na filmagem, que costumam ser artificiais, eram todas naturais. A locação, morada da nobreza francesa no século 18, vinha com uma série de restrições. Esse esmero, que beirou a megalomania, custou caro. Na época, chegou a US$ 40 milhões, algo como US$ 70 milhões, ou R$ 385 milhões, na cotação atual.

O contraste entre o documentário e o filme de Sofia é imenso. Enquanto o longa entrou para a história por seu registro opulento dos excessos da nobreza francesa do século 18, o documentário mostra, em filmagens de guerrilha, os bastidores pouco glamurosos da produção.