Tempo até diagnóstico do câncer de mama altera chance de sobrevida

Maura Bandeira, 54, precisou retirar completamente sua mama direita para tratar o carcinoma que a acometeu e, quando a pele rejeitou a prótese de silicone , passou quase dois anos com um buraco aberto onde antes tinha o seio. Rita Santana,

Por Admin ·

Tempo até diagnóstico do câncer de mama altera chance de sobrevida

Maura descobriu o câncer em 2019, em Alvorada, na região metropolitana de Porto Alegre . Três anos depois, Rita recebeu o diagnóstico em Gravataí, a 17 quilômetros dali. Ambas fizeram cirurgia e tratamento pelo SUS (Sistema Único de Saúde) na capital gaúcha.

A maior diferença entre suas histórias, além da gravidade da cirurgia, está no tempo de quatro anos levado por Maura até o diagnóstico.

O diagnóstico tardio é uma das principais barreiras ao tratamento do câncer de mama no Brasil. Estudos mostram que o diagnóstico tardio implica tumores maiores, cirurgias e tratamentos mais agressivos e menor chance de cura.

Renda, escolaridade, local de moradia e raça interferem em quem vai ser diagnosticada mais cedo ou mais tarde, afirma Luiz Ayrton Santos Júnior, presidente da Femama (Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama).

Desde 2015, Maura sentia a mama densa, pesada e inchada e, às vezes, um caroço, apesar das mamografias anuais.

Ela relatava isso aos médicos do posto de saúde, mas, como o exame de imagem não indicava nada errado, ouvia que era impressão sua. Durante quatro anos, segundo ela, nenhum profissional fez o exame clínico das mamas.

Conforme a SBM (Sociedade Brasileira de Mastologia), o rastreamento inclui mamografia e exame clínico, ambos anuais. Não pode ser feito apenas um deles.

Maura passou a andar com uma sacolinha azul com todos os exames acumulados para que alguém descobrisse o que havia de errado. Um dia, o ginecologista brincou que ela era a "dona da sacolinha" e decidiu examiná-la. No dia seguinte, ela foi encaminhada com urgência à rede pública, e o carcinoma, em estágio avançado, foi confirmado.

Rita teve um processo mais rápido. Ela sentiu um caroço no autoexame, monitorou por uma semana e, como não sumiu, foi ao posto de saúde do bairro. Na primeira consulta, o médico fez o exame físico e disse que era um tumor. A mamografia mostrou 2,4 cm, e a biópsia confirmou o carcinoma. Do caroço à cirurgia, foram pouco mais de três meses.

O Brasil tem leis que deveriam garantir um caminho como o de Rita a todas. O país prevê rastreamento mamográfico universal para mulheres dos 40 aos 74 anos e garante à paciente o direito de realizar exames complementares para a confirmação do diagnóstico em um prazo máximo de 30 dias.

Após a detecção da doença, a legislação determina ainda que o tratamento seja iniciado em um prazo de até 60 dias. Quem realiza o tratamento tem o direito de passar por uma cirurgia plástica reparadora ou reconstrução mamária.

"Segundo a lei, você está na Noruega", diz Guilherme Novita, presidente da SBM. Na prática, afirma, a mamografia não chega a todas e metade das brasileiras são diagnosticadas com tumores em estágios de 2 a 4.

Conforme o mastologista, os aparelhos se concentram no Sul, no Sudeste e no litoral do Nordeste, e muitos funcionam abaixo da capacidade por falta de insumos e de técnicos. Dados do Inca apontam um aumento na mortalidade do câncer de mama nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

Estudo do mastologista Ruffo Freitas-Júnior publicado na JCO Global Oncology em 2023 mostrou que, no SUS, a porcentagem de casos detectados em fase avançada em mulheres com mais de 50 anos foi de 43,16% entre 2018 e 2019. O percentual para a rede privada foi de 30,5%.

Outro levantamento de Freitas-Júnior e colegas, publicado em 2026 na BMC Public Health, analisou dados do SUS entre 2013 e 2022. A proporção de casos nos estágios 3 e 4 cresceu em todas as faixas etárias, com as menores taxas de mamografia no Norte e no Nordeste, enquanto o Centro-Oeste também ficou abaixo da média nacional.

Para os diagnósticos precoces, a diferença no tempo que a pessoa permanece viva após o diagnóstico não muda muito entre pacientes do SUS e da rede privada, diz Novita. Mas, em casos avançados, a sobrevida é significativamente menor para as pacientes tratadas no SUS.

Além do diagnóstico tardio, a espera entre a detecção da doença e o tratamento também continua acima do ideal no Brasil, apontam estudos. O acesso a remédios e tecnologias também é baixo na rede pública e varia conforme a região.

Procurado, o Ministério da Saúde afirma que foram feitas 63,6 mil cirurgias relacionadas ao câncer de mama em 2025, alta de 13,7% sobre 2023. O SUS, diz a pasta, também registrou recorde de mamografias, com 4,4 milhões de exames. Em 2025, a faixa etária para fazer o exame sem sintomas foi ampliada, de 50 a 69 para 40 a 74 anos.

A pasta diz, em nota, que as Carretas da Saúde atenderam mais de 189 mil mulheres e a telemedicina reduziu laudos de até sete meses para oito dias em alguns estados. Segundo o ministério, 84,2% dos casos registrados neste ano iniciaram tratamento em menos de 60 dias, ante 57,1% em 2025, devido ao programa "Agora Tem Especialistas". O impasse de Maura e Rita com o sistema de saúde aconteceu novamente no ano passado, quando foram diagnosticadas com metástase. Para ambas, o medicamento indicado foi o ribociclibe, que o SUS ainda não oferece. Elas recorreram à Justiça.

Rita recebeu o remédio em três meses. Maura esperou seis meses e, nesse intervalo, tomou outro quimioterápico oral, que, segundo ela, a deixou intoxicada e internada por 20 dias. Nesse período, Maura diz ter perdido 20 kg.

O medicamento está em análise para ser implementado no SUS. "Eu falo que o tratamento de câncer de mama é como o Titanic. Se você está na primeira classe, tem 90% de chance de sair vivo. Quem está na terceira, tem a chance de morrer muito alta", diz Novita.

Quando entraram no sistema, porém, tanto Maura quanto Rita tiveram atendimento rápido. "O que o SUS dá, já ajuda muito. Me salva", diz Maura. Rita, que se trata no Grupo Hospitalar Conceição, diz que sua médica "olha nos olhos, conversa, dá segurança". "A gente tem que mostrar que o SUS também está fazendo a parte dele. Eu sou a prova viva disso", afirma.

O Ministério da Saúde passou a ofertar na última terça-feira (20) nove novos medicamentos contra câncer no SUS , dos quais um é para o câncer de mama avançado —o abemaciclibe , que pode custar R$ 366 mil na rede privada. A pasta diz que o palbociclibe, que age de forma semelhante ao ribociclibe, já é oferecido.

Parte da solução não exige muito dinheiro, diz Novita. A SBM oferece treinar gratuitamente, de forma virtual, os agentes comunitários de saúde de prefeituras para examinar as mamas durante as visitas. Em Itaberaí (GO), um projeto com essa estratégia aumentou a detecção de tumores menores, segundo ele. A entidade também capacita médicos para fazer biópsia na própria consulta e reduzir a espera.

O restante, diz, depende de mais médicos, de mamógrafos funcionando e de um fluxo ágil entre alteração no exame, biópsia e início do tratamento. "O sistema gasta mais do jeito que está do que se organizasse isso melhor", afirma.