O SUS (Sistema Único de Saúde) vem ampliando a oferta de tratamentos para o AVC isquêmico (AVCI), responsável por cerca de 85% dos casos no país . Apesar dos avanços, o acesso ainda varia conforme o local onde o paciente mora e a rapidez com que chega a um hospital preparado.
O AVCI ocorre quando um coágulo bloqueia o fluxo de sangue para parte do cérebro. Um dos tratamentos disponíveis é a trombólise, que dissolve o coágulo com medicamentos intravenosos.
O protocolo nacional prevê o uso do medicamento alteplase desde abril de 2012, em geral até quatro horas e meia após o início dos sintomas. Antes da aplicação, é indispensável fazer uma tomografia para diferenciar o AVCI do hemorrágico, causado pelo rompimento de um vaso e cujo sangramento pode ser agravado pelo medicamento.
Apesar do aumento, a trombólise ainda é registrada em uma parcela pequena das internações por AVCI: a proporção passou de 1,5% em 2017 para 2,52% em 2024 e 2,71% no primeiro semestre de 2025. Os dados são de um estudo baseado no DataSUS , que analisou 1,66 milhão de internações entre 2017 e junho de 2025.
Outra opção é a trombectomia mecânica, indicada em casos de obstrução de grandes artérias cerebrais. O procedimento consiste em introduzir um cateter, geralmente por um vaso na virilha, até o local do bloqueio para retirar o coágulo e restabelecer a circulação.
A intervenção pode ser realizada até 24 horas após o início dos sintomas. A indicação depende de exames de imagem que localizam a obstrução e avaliam os danos cerebrais.
Os tratamentos não são excludentes: pacientes elegíveis podem receber trombólise e, em seguida, passar pela trombectomia. Outros podem ser encaminhados diretamente para o procedimento, conforme o quadro clínico e os resultados dos exames.
A trombectomia foi incorporada ao SUS em novembro de 2023. Desde então, o número de procedimentos registrados passou de 37, em 2023, para 1.026, em 2025, segundo o Ministério da Saúde . O aumento, porém, não significa que o tratamento esteja disponível em todo o país.
Um levantamento da SBAVC (Sociedade Brasileira de AVC) aponta desigualdades na oferta e afirma que o sucesso da incorporação não deve ser medido apenas pelo número de procedimentos realizados, "mas pela capacidade do sistema de oferecer essa chance ao brasileiro em todas as suas regiões".
Segundo o CNES (Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde), o Brasil tem 129 centros de atendimento de urgência ao AVC habilitados pelo Ministério da Saúde. Do total, 56% (73) são privados sem fins lucrativos, 41% (52) são públicos e 3% (4) são privados com fins lucrativos.
O número não abrange todos os hospitais que atendem pacientes com AVC no país, mas apenas aqueles que cumprem critérios específicos de estrutura e equipe definidos pelo Ministério.
Para obter a habilitação, o hospital deve encaminhar o pedido por meio da secretaria municipal ou estadual de Saúde, com aprovação dos gestores regionais, além de comprovar que atende aos requisitos técnicos e aos protocolos clínicos.
A autorização permite acesso aos incentivos federais previstos para o serviço, conforme sua estrutura e capacidade de atendimento.
Para Michel Machado, coordenador do atendimento ao AVC no Hospital Santa Marcelina, em São Paulo , a quantidade de centros habilitados ainda é insuficiente para atender à demanda de pacientes com a doença, que é uma das principais causas de morte e incapacidade no país.
A distribuição também é desigual pelo território. O Sudeste concentra 42% (54) dos centros habilitados, seguido pelo Sul, com 39% (50); Nordeste, com 12% (16); Centro-Oeste, com 5% (7); e Norte, com 2% (2).
"Do ponto de vista geográfico, a população não está coberta de forma homogênea. Nem todos vivem em locais onde há um serviço preparado para atender ao AVC. Na prática, a possibilidade de receber o tratamento depende de onde a pessoa mora", afirma Frederico Alves, presidente da SBAVC.
Além disso, apenas 19 hospitais têm habilitação específica para realizar a trombectomia mecânica pelo SUS, sete deles (37%) em São Paulo.
A habilitação permite receber o financiamento federal previsto para o procedimento, mas não garante a cobertura de todos os custos.
A trombectomia exige uma sala de hemodinâmica, equipada com aparelhos de imagem que orientam a passagem de cateteres pelos vasos sanguíneos, além de materiais específicos e uma equipe de neurorradiologia intervencionista disponível continuamente.
Segundo Alves, o valor reembolsado pelo SUS é inferior à metade do custo real para os hospitais, o que dificulta a ampliação da oferta. Ele afirma que alguns estados complementam os recursos federais, como ocorre em São Paulo, enquanto outros dependem principalmente do financiamento da União.
Mesmo quando há um serviço preparado, o paciente precisa chegar a tempo. A interrupção do fluxo sanguíneo pode causar danos permanentes às células cerebrais, e quanto mais rápido o tratamento, maiores as chances de preservar funções como fala e movimentos, afirma Alex Baeta, neurologista da Beneficência Portuguesa de São Paulo.
"Ainda assim, algumas pessoas demoram a procurar ajuda porque não reconhecem os sintomas ou esperam que desapareçam", afirma Machado. Os sinais incluem fraqueza ou formigamento de um lado do corpo, boca torta e dificuldade para falar ou compreender. Também podem ocorrer alterações súbitas da visão e do equilíbrio.
Outros procuram primeiro uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) ou UBS (Unidade Básica de Saúde), que geralmente não dispõem de tomógrafo, essencial para confirmar o diagnóstico.
Nesses casos, a transferência para um hospital com os recursos necessários pode consumir um tempo precioso para o tratamento.
Por isso, diante de uma suspeita, a recomendação é acionar o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), pelo número 192. A central de regulação avalia o caso e orienta o encaminhamento para um serviço adequado, conforme a necessidade do paciente e a estrutura disponível na rede.