Super El Niño quebra recorde de aquecimento de mais de 40 anos e acende alerta no Brasil

Conforme noticiado pelo Olhar Digital, dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) apontam que o El Niño atingiu um aquecimento histórico em outubro, com a anomalia na região Niño 3.4 chegando a 2,47 °C acima da média. O valor super

Por Admin ·

Super El Niño quebra recorde de aquecimento de mais de 40 anos e acende alerta no Brasil

Conforme noticiado pelo Olhar Digital, dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) apontam que o El Niño atingiu um aquecimento histórico em outubro, com a anomalia na região Niño 3.4 chegando a 2,47 °C acima da média. O valor supera o patamar de outubro de 1982, que era de 2,07 °C.

As medições semanais também bateram recordes. Na região Niño 3, a temperatura atingiu 3,7 °C acima da média na última semana do mês, superando a marca de 1981. Já na área Niño 1+2, próxima ao Peru e Equador, a diferença foi superior a 4,6 °C, igualando o ápice de junho de 1983.

Infográfico mostra recordes de aquecimento do El Niño no Pacífico, destacando anomalias de temperatura em três regiões oceânicas monitoradas pelo Inmet em outubro de 2026. – Crédito: Imagem gerada por IA

Quando o fenômeno foi confirmado em junho deste ano, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) já apontava alta probabilidade de intensidade acentuada. Em entrevista concedida ao Olhar Digital naquela época, o climatologista Carlos Nobre, doutor em Meteorologia pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos EUA, e referência internacional em aquecimento global, alertou sobre a gravidade do cenário de um possível “Super El Niño”.

“As chances de este ser um dos eventos mais intensos já registrados são extremamente elevadas. Por isso, precisamos estar muito preparados”, afirmou o especialista.

Ele ressaltou que o contexto global mudou drasticamente. O aquecimento contínuo dos oceanos e o acúmulo de energia na atmosfera fazem com que eventos extremos, antes raros, passem a ocorrer com muito mais frequência nas últimas décadas.

El Niño provoca impactos contrastantes nas regiões do Brasil

Os termômetros do Inmet confirmam que as temperaturas registradas em diferentes regiões do país superaram marcas das últimas quatro décadas. O cenário, antes previsto pelos especialistas, tornou-se realidade. Segundo Nobre, o fenômeno também atingiu níveis sem precedentes nas medições oceânicas, iniciadas na década de 1950.

Essa alteração térmica sem precedentes altera de forma profunda a dinâmica atmosférica. Com os mares mais quentes, a evaporação aumenta e impulsiona eventos graves e simultâneos exatamente como o especialista havia antecipado.

As regiões Norte e Nordeste sentem o impacto direto na umidade. “Tipicamente, o El Niño leva a um evento de muita seca, ondas de calor na Amazônia e grande parte do Nordeste, que é o que está acontecendo”, explicou o cientista, fazendo um alerta. “Infelizmente, por causa da seca e das ondas de calor, a vegetação fica muito inflamada, e o crime organizado está colocando muito fogo. A grande maioria dos incêndios são ilegais e são para fazer desmatamento, vamos dizer assim”.

Enquanto isso, o cenário no Sul do país é de excesso de água. “No oposto de seca, estão as chuvas excessivas. Em todo o Sul do Brasil, até mesmo um pouco do Sul de Mato Grosso do Sul, há excesso de chuva, como se previu”.

Infográfico mostra os impactos contrastantes do El Niño no Brasil, com secas e ondas de calor no Norte e Nordeste e tempestades intensas no Sul. – Crédito: Imagem gerada por IA

O aquecimento também intensifica fenômenos severos e atípicos na atmosfera da região Sul. “E também fenômenos climáticos, ciclones extratropicais, sistemas de baixa pressão, eles são mais fortes. E não só chuva excessiva, mas vendavais estão batendo recordes e também tornados”, ressaltou o pesquisador.

Nobre destacou ainda que a mudança no padrão climático traz desafios severos para cidades que não possuem infraestrutura adequada. “Nos estados do Sul, houve recorde no número de tornados. E tornado era uma coisa muito rara nesses estados. Portanto, todo o sistema nunca foi adaptado a tornados como aquela região centro-sudeste dos Estados Unidos, que sempre tiveram tornados”.

Para evitar tragédias maiores no futuro, o especialista defende que o país observe modelos de proteção urbana adotados em regiões habituadas a esse tipo de fenômeno nos Estados Unidos. “Lá, toda a região buscou adaptação. Por exemplo, todas as casas têm uma área subterrânea. Quando vem um tornado, as pessoas vão para a área subterrânea e o vento muito forte derruba a casa, mas as pessoas estão preservadas”.

Como o aquecimento oceânico intensifica as chuvas

Os mecanismos físicos explicam por que o calor oceânico alimenta tanta energia. Com os oceanos aquecidos, a evaporação é muito maior e a atmosfera responde com ventos mais velozes no hemisfério sul.

Esse fluxo acelerado de ar potencializa os volumes de chuva. “A chuva no Pacífico, até a costa da América do Sul, aumenta bastante e o fenômeno ganha força. Isso induz secas severas em vários lugares, especialmente na América do Sul, na Amazônia e no Nordeste. Além disso, ocorre um fenômeno meteorológico em que a velocidade do jato subtropical, a corrente de vento na atmosfera do hemisfério sul, aumenta consideravelmente ao cruzar a América do Sul. Esse acréscimo de velocidade faz o ar subir com mais intensidade, sendo esta uma das principais razões para as chuvas pesadas.”

O especialista acrescenta que os impactos continuam repercutindo mesmo após o fim oficial do fenômeno no Pacífico, impulsionados pelo aquecimento do Oceano Atlântico. Essa dinâmica prolonga tanto os períodos secos quanto as cheias extremas.

Carlos Nobre explica os efeitos do Super El Niño recordista que estamos enfrentando em 2026. – Crédito: Divulgação / IEA

Diante desse cenário desafiador, a prevenção passa a ser determinante para proteger milhões de brasileiros. Dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) indicam que dezenas de milhões de pessoas vivem em áreas vulneráveis a enchentes e deslizamentos.

O levantamento detalha a proporção real da população exposta ao perigo no território nacional. “Em um estudo de 2018 abrangendo quase mil municípios, o Cemaden mediu quantas pessoas estão sujeitas a chuvas excessivas, alagamentos, enxurradas, inundações e deslizamentos de encosta”, lembrou o climatologista. “Dos mais de 100 milhões de brasileiros avaliados naquele estudo, 10 milhões estão em áreas de risco e 2 milhões em áreas de altíssimo risco. Essas pessoas não deveriam continuar nessas áreas de altíssimo risco”.

Com os registros históricos de outubro comprovando o ritmo acelerado das alterações climáticas, o país precisa encarar a adaptação como prioridade absoluta. O alerta deixado pelo pesquisador resume o tamanho do desafio que bate à porta. “Então, nós temos que estar preparados porque, com o aquecimento global, todos os fenômenos hidrometeorológicos vão estar batendo recordes no mundo inteiro – e, certamente, no nosso país”.