Os dados são da pesquisa Panorama da Saúde Mental 2026 e se somam a evidências que levaram a OMS (Organização Mundial da Saúde) a reconhecer a solidão como ameaça global à saúde pública , comparando seus efeitos nocivos aos de fumar até 15 cigarros por dia.
A solidão e o isolamento social elevam o risco de doenças cardíacas , diabetes , declínio cognitivo e morte prematura, além de dobrarem a probabilidade de depressão , segundo a OMS.
O levantamento ouviu 4.601 pessoas de todo o país e foi realizado pelo Instituto Cactus, entidade filantrópica voltada à saúde mental, em parceria com a AtlasIntel. A pesquisa online ocorreu entre abril e junho, com amostra desenhada para representar a população por região, renda e gênero.
Realizado desde 2023, o Panorama tem como principal indicador o ICASM (Índice Contínuo de Avaliação da Saúde Mental), calculado a partir de um questionário geral de saúde. A escala vai de zero a mil pontos: quanto maior for a pontuação, melhores os indicadores. A média nacional foi de 671 pontos em 2026.
Entre os que se sentiram sozinhos três vezes ou mais no período pesquisado, o índice ficou em 383 pontos, ante 782 entre os que não relataram o sentimento. É a maior diferença identificada na série histórica, que investigou a solidão pela primeira vez neste ano.
Segundo Mariana Rae, especialista em saúde mental do Instituto Cactus e mestre em saúde pública pela Universidade Harvard, os dados não permitem afirmar se a solidão causa sofrimento ou é consequência dele. A relação, porém, é provavelmente de mão dupla. "Uma saúde mental inferior tende a levar mais à solidão, e o estado de solidão também afeta a saúde mental ", diz.
O sentimento é mais comum entre solteiros (51,7%, ante 26,6% dos casados), pessoas com diagnóstico de transtorno mental (52,5%) e usuários de redes sociais por três horas ou mais ao dia (46,8%, contra 26,1% entre usuários moderados). Entre quem brigou frequentemente com familiares, chega a 84,2%.
Na direção oposta, quem encontrou amigos nas duas semanas anteriores teve ICASM de 737 pontos, ante 539 entre quem não encontrou. Trabalho voluntário, atividade física e frequência a igrejas ou templos também estão associados a índices mais altos.
Para Rae, combater a solidão não depende apenas do indivíduo. "A pessoa tem autonomia de fazer ou não, mas tem que ter ofertas e possibilidades para escolher", afirma. Ela cita a falta de espaços comunitários, parques seguros, transporte acessível e lazer gratuito. "Parece que a solidão é algo simples, mas existe muita coisa em torno dela que precisa de planejamento."
Vários países enfrentam a solidão com políticas públicas, legislações específicas e intervenções urbanas e comunitárias. Entre as iniciativas estão a chamada "prescrição social", em que médicos recomendam atividades comunitárias, e linhas telefônicas de apoio.
Para o médico Sandro Batista Rodrigues, diretor de pesquisa da SBMFC (Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade), a solidão precisa entrar na agenda pública e ser abordada nas consultas, por sua associação a problemas físicos e mentais.
"Uma pessoa pode morar sozinha e ter vínculos fortes, outra pode estar cercada de gente e sentir que não tem com quem contar", afirma. Segundo ele, a abordagem já faz parte das consultas de médicos de família, assim como a prescrição social .
Uma pessoa pode morar sozinha e ter vínculos fortes, outra pode estar cercada de gente e sentir que não tem com quem contar
Em Florianópolis, por exemplo, médicas e médicos de família estão prescrevendo a volta aos estudos como parte do tratamento a pacientes com objetivo de melhoria da saúde e da qualidade de vida .
" É preciso construir, com a pessoa, uma conexão com as suas atividades, com a comunidade, que faça sentido para ela. Pode ser desde um grupo de caminhada, atividade cultural, horta comunitária, voluntariado. Muito mais do que preencher o tempo, é preciso fortalecer vínculos", diz Rodrigues, pesquisador em saúde da pessoa idosa.
A pesquisa também investigou o uso de inteligência artificial (IA) . Embora 86,4% já tenham utilizado alguma ferramenta e 51,9% tenham recorrido a geradores de texto, como ChatGPT e Gemini, apenas 31,3% dizem ter conhecimento médio ou alto sobre o tema.
Na saúde mental, 15% usaram IA em momentos de crise, 9,1% fizeram "terapia por chatbot" e 8,8% recorreram à tecnologia para se sentir menos sozinhos. Entre os que se sentiram sozinhos três vezes ou mais, 32,1% buscaram companhia na IA, ante 1,8% dos que não relataram solidão.