'Ser potência ecológica é poder que Brasil deveria impulsionar', diz Johar

O arquiteto britânico Indy Johar, 53, foi um dos convidados internacionais da 5ª edição do Filantropando, movimento lançado em 2023 para promover diálogos concretos para o avanço da filantropia no Brasil. Ele é cofundador do Dark Matter La

Por Admin ·

'Ser potência ecológica é poder que Brasil deveria impulsionar', diz Johar

O arquiteto britânico Indy Johar, 53, foi um dos convidados internacionais da 5ª edição do Filantropando, movimento lançado em 2023 para promover diálogos concretos para o avanço da filantropia no Brasil.

Ele é cofundador do Dark Matter Labs, laboratório global que desenvolve novas infraestruturas cívicas, econômicas e institucionais para responder a desafios sistêmicos como clima, habitação, democracia e regeneração social.

Johar instigou com provocações uma plateia de filantropos, investidores, empreendedores sociais e atores do ecossistema de impacto presentes no evento realizado pelo Instituto Beja , com curadoria do Instituto Toriba, nesta quarta-feira (21), em São Paulo.

A seguir os principais pontos da entrevista exclusiva que ele concedeu à Folha sobre novas arquiteturas de capital e o enfrentamento das múltiplas crises que desafiam os países e o planeta.

Que papel deve desempenhar a filantropia onde governos e investidores privados não chegam? É conseguir enxergar além dos horizontes do capital codificado e das normas contábeis, que não compreendem os riscos que estamos enfrentando. E ir além dos governos e do setor público. Portanto, o papel central da filantropia é perceber e atuar para além dessas limitações. Sua função essencial é fazer isso pela sociedade neste momento, sobretudo porque o capital privado ou estatal não está administrando muitos dos riscos.

Na sua fala de abertura, você falou de cenários bem complexos e desafiadores? É um momento substancialmente diferente daquele dos últimos 20 ou 30 anos, quando imaginávamos como seria o futuro. Em primeiro lugar, precisamos ter plena consciência de que agora estamos diante de um futuro no qual o planeta estará, em média, três graus mais quente. A meta de 1,5 grau já se foi. É praticamente impossível.

No fim deste ano e no início do próximo, estamos prestes a ver os efeitos do Super El Niño e da crise no Estreito de Hormuz sobre os preços, a disponibilidade dos alimentos e a nutrição em todo o mundo.

Quero, então, contextualizar o que três graus realmente significam. São oito graus a mais em nossas cidades. O padrão de chuvas em todo o mundo vem mudando. Estão mais intensas e concentradas, e temos períodos mais secos entre elas.

Outro aspecto que está avançando muito rapidamente é o papel da IA . Grande parte do que estamos vendo — e isso vale para muitas das grandes corporações com as quais conversamos em Londres — é que, até 2028, as principais empresas de serviços, as firmas de contabilidade e os escritórios de advocacia pretendem eliminar cerca de 40% de seus quadros.

Até 2028, haverá uma redução de 40% do número de funcionários em Londres, onde temos 170 mil motoristas da Uber e um processo acelerado de automação.

Há um relatório brilhante da Austrália que mostra que o investimento humano já não está vinculado ao crescimento do PIB. O que estamos vendo é a diminuição da contribuição dos seres humanos para a economia. Isso impede governos de investir em saúde, educação e bem-estar social.

O Brasil combina uma desigualdade profunda com um forte ecossistema de inovação social. Onde você vê as maiores oportunidades de mudança sistêmica aqui? Eu diria que há questões fundamentais — e serão três crises que o Brasil precisará transcender. A primeira é a crise de ser humano, e ela chegará rapidamente. Temos ainda a crise de viver segundo uma teoria de poder colonial de 400 anos. E a terceira é que o Brasil é uma superpotência ecológica mundial. A ecologia brasileira mantém basicamente o planeta vivo.

Essa capacidade de se tornar uma superpotência ecológica — estabilizando os rios voadores do planeta, por exemplo — é um novo tipo de poder que, a meu ver, o país deveria realmente impulsionar. Acredito que esses três futuros transformarão tanto o Brasil quanto o mundo.