Para especialistas ouvidos pela Folha , a primeira interrupção do ciclo de cortes, após cinco reduções consecutivas, mantém a vantagem das aplicações atreladas à própria Selic ou ao CDI (Certificado de Depósito Interbancário), taxa de referência do mercado privado.
Os títulos indexados ao IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), que oferecem juros reais em patamares considerados elevados, também continuam entre as recomendações.
Marcelo Freller, estrategista de produtos de investimento do C6 Bank, afirma que a volatilidade observada nas últimas semanas nos ativos brasileiros, como juros futuros, dólar e Bolsa, aumentou a cautela na recomendação de investimentos.
"[A volatilidade] nos leva a adotar uma postura muito mais conservadora em relação à renda fixa. Nossa principal classe de ativos continua sendo a dos pós-fixados. Na parte dos títulos atrelados à inflação, títulos com vencimento em até três anos são uma ótima oportunidade de investimento", afirma.
Os títulos pós-fixados acompanham a taxa básica de juros ou o CDI, o que reduz a sensibilidade às oscilações das taxas de mercado.
Segundo levantamento do C6 Bank, o Tesouro Selic com vencimento em 2028 deve oferecer retorno real líquido de 6,67% —já descontados o Imposto de Renda e a inflação projetada— em uma aplicação de um ano.
"Os ativos pós-fixados continuam sendo a principal preferência. Não enxergamos uma mudança significativa na dinâmica de mercado que justifique uma alteração estrutural da carteira. Ainda não tivemos uma queda expressiva na curva de juros para mudar a preferência por essa classe de ativos", diz Pedro Moreira, sócio da One.
Os títulos atrelados ao IPCA também continuam atraentes, segundo os analistas. Essas aplicações remuneram o investidor pela inflação acumulada, acrescida de uma taxa prefixada de juros.
De acordo com o C6 Bank, um CDB atrelado ao IPCA com remuneração de 7,05% ao ano acima da inflação proporciona retorno real líquido de 4,98%, considerando uma aplicação de um ano.
Para Eduardo Amorim, sócio e especialista em renda fixa da Manchester Investimentos, esses papéis oferecem oportunidades. "Oferecem taxas reais historicamente atrativas e proteção contra a inflação, desde que respeitados os riscos e os prazos. O IPCA+ oferece maior previsibilidade de retorno real no vencimento, sendo especialmente interessante para investidores com patrimônio consolidado e horizonte de longo prazo."
Os títulos de vencimentos mais longos, porém, ficam mais expostos à marcação a mercado —variação do preço do papel antes do vencimento— caso o investidor precise resgatar os recursos antecipadamente.
A recomendação de cautela ocorre em meio à maior volatilidade dos mercados após a vitória de Lula (PT) para um quarto mandato . Na última semana, a Bolsa recuou 18%, na maior desvalorização desde 2020 , enquanto o dólar subiu 9,18%, a maior alta em 18 anos. Os juros futuros acumularam alta superior a 2%.
A reação reflete o receio de que o governo não adote medidas suficientes para equilibrar as contas públicas. A perspectiva de continuidade de uma política fiscal expansionista eleva o prêmio de risco exigido pelos investidores, pressiona os juros de longo prazo e pode encarecer o crédito para empresas e consumidores.
A alta do dólar também pressiona os custos de produção de empresas que dependem de insumos importados e os preços de commodities, inclusive agrícolas, o que pode dificultar a convergência da inflação à meta.
Segundo o Boletim Focus , economistas elevaram a projeção para o IPCA neste ano de 5,19% para 5,22%. As estimativas também subiram para 4,76% em 2027 e 4% em 2028. Em outubro, o índice acumulava alta de 4,62% em 12 meses, acima do teto da meta do Banco Central , de 4,5%. O centro da meta é de 3%.
As expectativas para a Selic também avançaram. A projeção para o fim deste ano passou de 13,25% para 13,5%. Para os anos seguintes, subiu para 12,5% em 2027 (de 11,75%), 11% em 2028 (de 10%) e 10,25% em 2029 (de 10%).
Para Antônio Sanches, analista de alocação da Rico, a diferença entre um corte de 0,25 ponto percentual e a manutenção da Selic tem pouco impacto sobre os investimentos. O mais relevante é a perspectiva de juros elevados por mais tempo.
"Na prática, os investimentos atrelados à Selic tendem a ganhar peso na carteira, porque continuarão oferecendo uma remuneração bastante elevada em relação ao que esperávamos. Já os investimentos de maior risco, como ações e fundos imobiliários, tendem a se tornar menos atrativos. Esses ativos são avaliados com base em taxas de desconto, e juros mais altos exigem retornos maiores para compensar o risco assumido", diz.
Selic em 13,75% mantém atratividade da renda fixa pós-fixada; veja como ficam os investimentos
A decisão do Copom de manter a taxa básica de juros , a Selic , em 13,75% ao ano preserva a atratividade da renda fixa, com destaque para títulos pós-fixados e indexados à inflação .