23/10/2026 03h30 Atualizado 23/10/2026 03h30
Desde a redemocratização, a eleição de 2022 foi aquela em que a disputa presidencial foi decidida com a margem mais apertada , com apenas 1,8 ponto percentual entre o atual chefe do Executivo, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e o então postulante à reeleição, Jair Bolsonaro (PL). A quatro dias daquele pleito, a pesquisa Quaest indicava o petista com uma vantagem superior: Lula aparecia com 48% das intenções de voto, seis pontos acima dos 42% de Jair. Os levantamentos atuais indicam que o recorde de resultado parelho tem grandes chances de ser novamente quebrado.
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No primeiro turno, o senador Flávio Bolsonaro (PL), filho de Jair, saiu das urnas com uma distância de somente 1,87 ponto percentual sobre Lula , a vantagem mais curta já registrada para uma primeira volta. Na Quaest desta quarta-feira, também a quatro dias do segundo turno, Flávio apareceu numericamente à frente com 45%, porém empatado tecnicamente dentro da margem de erro com o petista , que marca 44%, indicando um desfecho ainda imprevisível para o próximo domingo.
Na última eleição, em meio a acusações sem provas sobre uma fraude inexistente, a margem apertada turbinou a contestação de apoiadores de Bolsonaro, que acamparam diante de quartéis pedindo intervenção militar e, em 8 de janeiro de 2023, depredaram as sedes dos Três Poderes, em Brasília. O próprio ex-presidente, assim como os invasores, acabou condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado , motivo pelo qual ele encontra-se preso desde agosto do ano passado.
Além da expectativa sobre como o candidato derrotado, seja o herdeiro de Jair ou Lula, lidará agora com a escolha revelada pelas urnas, fica também a dúvida sobre qual será o seu legado político. De um lado, o presidente, com 80 anos, diz que não vai mais disputar as eleições, deixando aberto, caso não seja reconduzido ao cargo, o posto de principal nome da esquerda pós-2026. Do outro, mesmo com seu maior expoente preso, o bolsonarismo saiu do primeiro turno com bancadas expressivas , mas restaria a dúvida sobre como o movimento se reorganizaria para tentar retomar a Presidência depois de mais quatro anos longe do Planalto. Flávio, por sua vez, deixaria de ocupar um cargo público pela primeira vez em mais de 20 anos.
Lula disputa sua última eleição. Se perder, não terá ninguém a culpar a não ser a si mesmo. Neste caso, passará os próximos anos tentando controlar a guerra fratricida do PT pela sua sucessão. Já Flávio Bolsonaro, mesmo se perder, sairá desta campanha maior do que entrou. De candidato desprezado pelo Centrão até agosto, passou ao melhor herdeiro do bolsonarismo. Vira o líder do antipetismo radical, até nas eleições.
A eleição será provavelmente a mais apertada dos últimos anos no país. Tínhamos como normal eleições em que Lula ganhava do PSDB por 60 a 40, sem polêmicas. A polarização entre Bolsonaro e Lula fez com que as diferenças fossem reduzidas, até chegarmos hoje a esse empate técnico. A reação dos Bolsonaro à derrota de 2022 foi violenta, culminando em uma tentativa de golpe para impedir a posse de Lula. Espero que a lição tirada da defesa da democracia, com a condenação à prisão do ex-presidente e dos civis e militares golpistas, leve a um comportamento mais civilizado e republicano. Se Lula vencer, vai ter uma dificuldade grande para governar, pois o Congresso será majoritariamente de centro-direita. A negociação política vai se dar em ambiente tenso, diante da radicalização da extrema direita. Ao mesmo tempo, haverá metade da população a seu favor, e ele deverá usar a opinião pública para pressionar o Congresso. Já Flávio estará com a faca e o queijo na mão, pois terá a maioria do Congresso e também do STF, podendo nomear pelo menos quatro ministros. Temas delicados, como armamento, cultura e economia, poderão ter maioria congressual, mas a opinião pública como barreira.
Tivemos a pior campanha eleitoral desde a redemocratização — ela teve mais jogo sujo do que as campanhas de 1989, 2014 e 2022. Vamos sair com muitas cicatrizes e com o desafio de fazer o Brasil aceitar o resultado, que certamente será apertado. Os dois candidatos já se comprometeram e devem aceitar. O que não sabemos é o que fará a militância.
Provavelmente repetiremos 2018 e 2022, em que o derrotado não ligou para o vencedor cumprimentando pelo resultado, um gesto de gentileza feito em confrontos anteriores por Aécio Neves, José Serra e Geraldo Alckmin. Há oito anos, Fernando Haddad não telefonou para Jair Bolsonaro e, na eleição seguinte, o ex-presidente deu um passo além na hostilidade ao se recusar a passar a faixa presidencial para Lula na cerimônia de posse. Mas tenho duas dúvidas sobre ambos em caso de revés: Flávio Bolsonaro vai reconhecer o resultado se perder como prometeu em entrevista para Renata Lo Prete, diferentemente do que fez o pai? Sobre Lula: não há porque imaginar um comportamento do presidente que conteste as urnas, mas o petista, se for derrotado, estará em Brasília na posse no dia 5 de janeiro de 2027 para passar o poder ao rival em uma cidade lotada de bolsonaristas? A conferir os números no domingo e a maturidade dos presidenciáveis em lidar com a escolha da população.
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