Rumo a coisas melhores: Antártida!

Prooooooonto, já posso respirar de novo. A auto-organização não deixou a desejar e se manifestou nos dois continentes em que vivo a maior parte da minha vida, lá e cá: em ambientes moderados, mais cedo ou mais tarde, de um jeito ou de outro, extremismos provoc

Por Admin ·

Rumo a coisas melhores: Antártida!

Em ambientes extremos, contudo, o equilíbrio dinâmico pode acabar sendo extremado também. Vide a Antártida, que acabei de descobrir que não pertence a ninguém: por acordo assinado em 1959 e que hoje tem a adesão de mais de 50 países, o continente é de todos, uma reserva livre, pacífica e científica.

Pois este mais árido e mais frio dos continentes, com exatamente zero humanos nativos, abriga seres que ou têm cérebros cheios de neurônios –pinguins e aves migratórias, baleias e focas, e lulas gigantes– ou têm só um pinguinho deles: microcrustáceos, esponjas, ascídias e estrelas-do-mar, além de peixes. Não há meio-termo, como répteis e anfíbios, pequenos roedores e carnívoros. Por que não há moderação na Antártida?

Meus colegas dirão que é uma questão de adaptação por seleção natural, como se o meio-termo houvesse chegado à Antártida e gerado filhos de tamanhos variados dos quais ou somente os maiores ou somente os menores prevaleceram, mudando a cara da população ao longo de gerações consecutivas.

Coisa nenhuma, eu respondo. O meio-termo não tem vez nos ambientes extremos. Criaturas de sangue quente com tamanhos moderados perdem calor para água e ar gélidos da Antártida muito mais rápido do que geram, então sequer conseguiriam chegar lá para começo de conversa. Os mamíferos que vivem na Antártida são descendentes dos poucos que conseguem funcionar no frio extremo, então foram se aventurando mais e mais ao sul, e ficam por lá simplesmente porque podem. São as baleias e focas, cujo volume enorme isolado em uma capa de gordura preserva seu calor. Um réptil em gelos antárticos viraria bem rápido picolé para focas.

Mas os corpos de baleias e focas são aquecidos, como o dos pinguins, à força de um grande número de neurônios trabalhando a todo vapor, por sua vez viáveis graças à energia provida por uma abundância mesmo na água gelada de peixes e krill, aqueles pequenos crustáceos com um pinguinho de neurônios. Estes, por sua vez, são viáveis porque consomem algas unicelulares e outros seres microscópicos que por sua vez vivem de ar e luz e moléculas na água –e tudo isso a Antártida tem de montão. O que é microscópico funciona perfeitamente bem no frio extremo, e o que é gigante também, movido e mantido pelo microscópico.

O meio-termo, ao contrário, não consegue nem chegar ao extremo da Antártida, e se chegar, não dura muito tempo lá. Exceto, claro, o meio-termo tinhoso e teimoso chamado bicho homem, que dá um jeito de levar seu calor e comida consigo, mais uma câmera ao pescoço para contar a estória quando voltar.

Eu serei em breve um desses humanos. Em fevereiro próximo vou passar dez dias na Antártida vivenciando isso tudo em primeira mão –e você pode ir comigo, pois é uma expedição privada e ainda há cabines disponíveis (o Google sabe dar detalhes). Vamos?