Antonio Prata escreveu certa vez sobre um cara que frequenta botecos e biroscas em busca do Brasil autêntico e cumprimenta os atendentes com um tapinha nas costas, acreditando que ser "amigo" dos garçons vai resolver 500 anos de desigualdades históricas.
"Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro (...), mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevette e chinelo Rider".
Há mais de um século e meio, a elite brasileira já olhava assim para quem estava longe dela.
O romantismo inventou o bom selvagem. José Alencar deu ao país Peri e Iracema e Gonçalves Dias descreveu guerreiros de dignidade impecável. Era um indígena nobre, puro e corajoso que servia a um projeto: o segundo reinado precisava de um passado fundador que não fosse europeu e a literatura se encarregou de criar estes heróis.
Enquanto os versos circulavam nos salões do Rio de Janeiro , os indígenas de carne e osso eram expulsos de suas terras e dizimados por doenças ou milícias particulares. As duas coisas aconteciam ao mesmo tempo, sem que ninguém enxergasse alguma contradição.