O Rio de Janeiro registra um aumento recente de casos de Mpox, e médicos fazem alertas para conter o avanço da doença. Trata-se de uma infecção viral transmitida pelo contato e que tem entre os sintomas lesões de pele. Segundo dados do Centro de Informações Estratégicas e Resposta de Vigilância em Saúde, até a última terça-feira, 211 pacientes testaram positivo no estado, número que já supera o total de todo o ano passado: 119. O aumento é puxado pelos meses de setembro e outubro, que totalizam 90 diagnósticos, 45 cada. Em 2025, os dois meses contabilizaram apenas 10. O crescimento nesse período é de 800%. Ainda há 117 casos em investigação. Um novo subtipo do vírus que transmite a doença estaria em circulação no Rio, segundo especialistas.
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Na capital fluminense, a situação também preocupa. Segundo as informações mais recentes do Observatório Epidemiológico da Cidade do Rio, até quinta-feira, 167 casos foram confirmados, contra 94 em todo o ano passado. Setembro, com 45, e outubro, com 29, concentram 74 diagnósticos, enquanto no mesmo período de 2025 foram somente 10. No momento, há 81 casos suspeitos.
Na quinta-feira, o deputado federal Daniel Soranz, ex-secretário municipal de saúde, chamou a atenção para a situação, em vídeo publicado nas redes sociais.
— O vírus da Mpox está circulando com mais intensidade no Rio de Janeiro e no Brasil. Neste momento, há 10 pacientes internados com a doença no Rio. É uma doença de fácil diagnóstico. São bolhas que aparecem seguidas de febre e acompanhadas de linfonodomegalia (popularmente conhecida como íngua), na maioria das vezes. A confirmação diagnóstica é super simples. Basta coletar o material das feridas e enviar para o Lacen (Laboratório Central de Saúde Pública). Todas as unidades básicas de saúde estão aptas a fazer. O diagnóstico precoce evita que a doença seja transmitida, orienta o paciente e permite o melhor acompanhamento — disse ele no vídeo.
Existe vacina contra a doença, mas, no momento, as doses estão em falta no Sistema Único de Saúde. Utiliza-se o imunizante MVA-BN, composto por vírus vivo enfraquecido, que não se reproduz dentro das células humanas. O esquema padrão consiste em duas doses, aplicadas por via subcutânea no ombro, com um intervalo de 28 dias (quatro semanas) entre elas.
— Como presidente da Frente Parlamentar da Vacina, do Congresso Nacional, venho cobrar, do Ministério da Saúde, que aumente a cobertura vacinal para a Mpox em todo o Brasil. Infelizmente, poucas foram as vacinas recebidas, e a maior parte da população de risco ainda não foi vacinada. Muitos países já têm essa vacina no seu calendário para toda a população de risco — afirma Soranz.
Pioneira no enfrentamento da Aids na década de 1980, a médica infectologista Marcia Rachid vem alertando para a alta de casos de Mpox desde o início do mês, em suas redes sociais. Uma das fundadoras do Grupo Pela Vidda RJ, de suporte a pessoas que convivem com o HIV, Marcia destaca o impacto que a Mpox pode ter nesse público.
— Mpox é muito arriscado para quem vive com HIV, porque, se a pessoa estiver com a imunidade muito baixa, ela pode ficar numa situação muito grave. Já houve casos de óbitos — explica a médica, que atende esse público desde 1984 e iniciou seu ativismo dois anos depois.
O GLOBO aguarda uma resposta do Ministério da Saúde sobre a estratégia de imunização a ser adotada pelo Programa Nacional de Vacinação (PNI) diante do aumento de casos.
'Dificuldade absurda para comer e beber água'
O ator Ari Areia, de 35 anos, começou a apresentar os sintomas no dia 30 de setembro e testou positivo dias depois. Ele conta que recorreu a uma Clínica da Família, a uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e ao serviço de emergência do Hospital Municipal Souza Aguiar, locais onde a possibilidade de Mpox não chegou a ser cogitada. Mais de uma semana depois, viu um post de Marcia Rachid no Instagram chamando atenção para o aumento de casos, entrou em contato com ela, mostrou as lesões de pele, e a médica sinalizou que as erupções eram características da doença. Ari, então, cancelou os compromissos profissionais, entrou em isolamento e procurou a Fiocruz, onde foi diagnosticado.
— Tive febre, dores no corpo, mal-estar e uma infecção de garganta que chegou a ser diagnosticada como uma amigdalite, mas não apresentava melhora nenhuma ao uso dos antibióticos. Como fiquei uma semana e meia com uma dificuldade absurda para comer e ingerir água, precisei ficar internado no hospital da Fiocruz para cuidar disso. Recebendo a medicação correta, essa questão da garganta evoluiu rápido. A Mpox em si não tem um tratamento, é esperar encerrar o tempo do ciclo viral e ir controlando possíveis situações que acompanhem. Apesar de ter sido informado pelos médicos da Fiocruz que minhas amostras sinalizaram uma variante nova mais forte que está circulando na cidade desde o final do ano passado, considero que tive um quadro leve. As erupções de pele, inclusive, foram poucas e pareciam muito espinhas comuns — detalha.
O risco de transmissão se inicia logo no surgimento dos primeiros sintomas, como febre, dores no corpo ou mal-estar. O vírus pode começar a ser transmitido de 1 a 4 dias antes do aparecimento das feridas. A transmissão só cessa quando todas as feridas cicatrizam completamente, ou seja, quando as cascas das lesões caem e a nova camada de pele se forma. Eis as formas de transmissão:
Contato direto: tocar nas lesões cutâneas, bolhas, pústulas ou crostas de uma pessoa infectada. Fluidos corporais: contato com saliva, secreções respiratórias ou fluidos genitais durante o ato sexual ou beijos. Objetos contaminados: compartilhar ou tocar em roupas, toalhas, lençóis, talheres ou superfícies que tiveram contato com o paciente. Via respiratória: contato próximo, prolongado e face a face (gotículas respiratórias)
A transmissão de Mpox pode ocorrer por contato próximo com secreções respiratórias, lesões de pele de uma pessoa infectada ou com objetos e superfícies contaminadas. Uma das situações de risco é a relação sexual. Membros da família e outros pessoas próximas a quem está com a doença também ficam mais vulneráveis à contaminação. As autoridades de saúde fazem recomendações para conter a disseminação da infecção. Veja abaixo:
Evitar contato físico direto com lesões na pele ou nas mucosas de pessoas com suspeita ou confirmação da doença; Evitar contato íntimo e relações sexuais na presença de sinais ou sintomas suspeitos, até avaliação por um profissional de saúde; Não compartilhar objetos pessoais, como toalhas, roupas de cama e vestimentas, que possam estar contaminados; Procurar atendimento em uma unidade de saúde diante do aparecimento de lesões suspeitas, especialmente nas regiões genital, anal, oral ou em outras partes do corpo, acompanhadas ou não de febre e aumento dos linfonodos; Em caso de suspeita ou confirmação, seguir as orientações de isolamento e acompanhamento dos serviços de saúde, evitando contato físico próximo até a completa cicatrização das lesões e a formação de uma nova camada de pele; Buscar informações sobre a vacinação contra a Mpox, disponibilizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para grupos específicos, conforme as recomendações vigentes do Ministério da Saúde. Em casos de confirmação, manter abertas as janelas de locais fechados e, quando na presença de outras pessoas, fazer uso da máscara cirúrgica Fazer lavagem frequente das mãos A higiene do ambiente (chão e superfícies) pode ser realizada com água sanitária; Manter as feridas cobertas em caso de contato com outras pessoas; Em caso de banheiro único na casa, o paciente deve utilizá-lo por último; após o uso, deve ser feita a limpeza do ambiente; Os cuidados devem ser mantidos por, no mínimo, 21 dias, ou até as crostas caírem; Em caso de piora das lesões, retorne ao serviço de saúde para avaliação médica.
Entre as referências no diagnóstico, atendimento e acompanhamento da Mpox no Rio, está o Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI), da Fiocruz, no número 4.365 da Avenida Brasil, em Manguinhos. O local mantém, desde 2022, um serviço de atendimento 24 horas para pessoas com suspeita ou confirmação da doença. Ao longo desse período, 955 pessoas com diagnóstico confirmado foram monitoradas. Em 2026, entre 1º de janeiro e 22 de outubro, 129 pessoas tiveram confirmação laboratorial da infecção. A partir de setembro, observou-se um aumento no número de diagnósticos, com 75 casos confirmados entre 1º de setembro e 22 de outubro.
— No Brasil, a transmissão por contato sexual tem predominado. O uso de preservativos pode reduzir o risco de transmissão, mas não oferece proteção completa, uma vez que pode haver contato com lesões em áreas do corpo não cobertas pelo preservativo — observa Mayara Secco, pesquisadora do INI. — Embora a maioria dos casos evolua com recuperação espontânea, a Mpox pode apresentar formas graves, principalmente em pessoas com imunossupressão, crianças e gestantes. Por isso, o reconhecimento dos sinais e sintomas, o diagnóstico precoce e o acompanhamento clínico são fundamentais.
O Núcleo de Enfrentamento e Estudos de Doenças Infecciosas Emergentes e Reemergentes (Needier), da Universidade Federal do Rio de Janeiro, também faz o diagnóstico e acompanhamento da doença. O local fica na Avenida Carlos Chagas 791, Quadra F da Cidade Universitária, na Ilha do Fundão.
— Pelo menos desde agosto, nosso ambulatório vem observando um aumento na demanda. Nas últimas semanas, houve uma alta significativa na confirmação de casos de Mpox — pontua o médico infectologista Rafael Galliez, vice-diretor do Needier.
De acordo com Galliez, também professor da faculdade de medicina da UFRJ, há registros de um novo subtipo do vírus Mpox em circulação no Rio:
— Tivemos o clado (subtipo) 2b em 2022, quando foi declarada emergência sanitária mundial pela OMS. Em 2024, surge, na República Democrática do Congo, o 1b, ocasião em que um nova emergência foi declarada. Em seguida, tivemos casos importados em São Paulo. Agora, há dados de estudos de sequenciamento que dão conta da entrada e circulação intensiva do novo clado (1b) no estado do Rio. Mas ainda não podemos dizer que isso está, necessariamente, relacionado ao aumento de casos.
As secretarias municipal e estadual de Saúde informam que acompanham a evolução do cenário, que, no momento, ainda não pode ser classificado como surto ou epidemia, explicam. E que promovem medidas de prevenção.