Restauração de capela resgata fé e história 11 anos após tragédia em Mariana

Era consenso em Bento Rodrigues que, caso a barragem de rejeitos da mineradora Samarco um dia se rompesse —temor constante entre os habitantes da comunidade localizada no distrito de Santa Rita Durão, em Mariana (MG)— eles poderiam estar a

Por Admin ·

Restauração de capela resgata fé e história 11 anos após tragédia em Mariana

A igreja se localiza num dos pontos altos do distrito e não foi atingida pelos cerca de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos imediatamente liberados pelo rompimento, há 11 anos .

Em 5 de novembro de 2015, sem sirene ou sinalizações que indicassem rota de fuga, foi ali que grande parte da comunidade se reuniu, enquanto suas casas, bens e plantações eram arrastados pela lama. A tragédia deixou 19 mortos, conta que não considera o aborto de um nascituro.

A capela, possivelmente construída entre 1750 e 1815, no fim do ciclo do ouro que marcou o período colonial em Minas Gerais , sofreu uma severa deterioração ao longo dos anos. Hoje, passa por um processo de reforma e restauro que reafirma sua vocação enquanto símbolo de fé e resistência dos atingidos.

"Essa comunidade sempre teve um carinho muito especial à devoção da Nossa Senhora das Mercês", afirma o padre Marcelo Moreira Santiago, que desde 2020 atende a família paroquial do Sagrado Coração de Jesus, de Mariana, onde a capela está inserida. "Gerações e gerações ali se reuniram, celebraram a sua fé e renovaram a sua esperança para o enfrentamento do dia a dia da vida."

Santiago diz que a recuperação da igreja não é só simbólica, mas traduz um esforço de preservação e fortalecimento da memória em meio à devastação, especialmente após o reassentamento dos antigos moradores no novo Bento Rodrigues, localizado a cerca de 12 quilômetros do subdistrito original. "Trata-se de uma capela histórica, simples, mas que marca toda a grandeza de um passado que hoje se mantém."

Início das obras, em 2024; capela em 2026, com obras de estrutura e parte externa concluídas - Práxis RestaurArte - 2024 e Alexandre Rezende - 3.nov.26/Folhapress

"A restauração completa traz um alento, uma autoestima muito grande no povo, para que eles também possam se reconstruir nesse novo momento, diante desses 11 anos de sofrimento e dor", diz o padre.

As obras na capela, tombada pelo Iepha (Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais) desde 2018, começaram há dois anos por meio da Fundação Renova , após uma decisão judicial fruto de mobilização popular. A entidade foi criada pela Samarco e pelas acionistas da empresa, Vale e BHP , para gerenciar e executar os programas de reparação dos danos causados.

Com a repactuação garantida pelo Novo Acordo do Rio Doce, de novembro de 2024 , a Arquidiocese de Mariana assumiu a responsabilidade pela condução do restauro e requalificação da capela e de outras igrejas atingidas no subdistrito de Paracatu de Baixo e no município de Barra Longa, vizinho de Mariana e também afetado pelo rompimento. Os recursos são provenientes da própria reparação.

Em abril deste ano, com as obras civis na estrutura e na parte externa concluídas, foi iniciado o processo de restauração com foco na chamada arte aplicada, de reforma dos elementos artísticos do rococó mineiro presentes no interior do templo.

"Toda nossa intervenção na restauração vem para trazer e valorizar aquilo que já existe, não para sobrepor, melhorar ou renovar", explica a restauradora Rosângela Reis Costa, coordenadora do Grupo Oficina de Restauro, que conduz o processo.