Passada essa onda, na hora de decidir o que escrever, acabei optando por "recauchutar" o texto. E agora me deu vontade de falar justo dessa palavra, que é do meu tipo preferido: as que deram as suas voltinhas.
Seu significado básico é "recobrir de nova camada de borracha um pneu que já não vive seus melhores dias". Só que a partir daí rolou uma bela de uma extensão de sentido e o verbo passou a querer dizer algo como "dar um up", "repaginar". Uma busca rápida aqui nesta Folha encontra até um exemplo de "dar uma recauchutada nos glúteos" .
Só que em "repaginar" a origem da coisa fica clara porque a gente continua usando a palavra "página". É uma espécie de metáfora que se emprega conscientemente. A "recauchutagem", no entanto, sofre um pouco mais porque sua base se perde na proverbial poeira dos tempos.
O radical vem do francês "caoutchouc", que por lá tem pura e simplesmente o sentido de "borracha". Mas a cara diferentona da palavra aponta para uma origem ainda mais distante e não decepciona. Sua fonte está no quíchua, língua originária da América do Sul, ainda hoje falada por mais de 7 milhões de pessoas.
Nada de estranho nisso. A seringueira —árvore que fornece o látex— é nativa da região amazônica; então trata-se de um caso claro em que a palavra chega junto com a coisa que denomina.
"Ei, bacana essa coisinha grudenta aí. Como é que chama mesmo?" "Kawchu!"