Quem votou em Flávio Bolsonaro queria se ver livre de uma ideologia violenta

No segundo turno , os eleitores votaram mais por pavor do adversário do que por fervor pelo candidato . Democracia não serve só para eleger o melhor, mas para tirar do poder quem não presta. Desta vez, nem isso.

Por Admin ·

Quem votou em Flávio Bolsonaro queria se ver livre de uma ideologia violenta

O governante segue o mesmo, o que importa são as mudanças culturais. Há muito pervertemos dois conceitos fundamentais: democracia e soberania. Democracia significa governo do povo, e povo é todo mundo: não a maioria, não quem venceu a última eleição. É cada indivíduo. Um governo bom para uns e mau para outros não é governo do povo, é governo de uma parte sobre a outra, a tirania da maioria.

Soberania, do mesmo modo, não é do Estado: as fronteiras existem para proteger os direitos de quem vive dentro delas contra quem quer violá-los. Quem defende a soberania de um governo tirânico não defende a soberania; defende a tirania. A única soberania que importa é a do indivíduo no exercício da sua liberdade.

Eu quero um país de homens livres, e a régua que mediu os três governos de Lula é a mesma que vai medir o quarto. Um peso e uma medida: bom é o que a promove, sustenta e realiza a vida do ser humano racional; mau é o que a destrói ou nega.

A vida e a felicidade de cada um são o propósito de suas ações, e, para viver em sociedade, é preciso reconhecer os direitos individuais como princípios morais, deduzidos da realidade e da natureza humana, e não concedidos pelo Estado. O governo é seu mero protetor. Daí decorre o resto: coerção retaliatória, freios e contrapesos, responsabilidade de cada um pelos próprios atos e alternância no governo.

O que temos na prática é um tribunal que investiga, acusa e julga, que cassa, censura e legisla, que jogou a Constituição no lixo para governar pelo arbítrio. A de 1988 garantia direitos do indivíduo no artigo 5º; do 6º em diante, descambava, desvairada, em privilégios que violavam esses direitos em nome do coletivo.

Era melhor que nenhuma, e é sem nenhuma que vivemos, sob uma corte que abriga quem se diz vítima quando deveria ser réu.

O arbítrio só dura porque o toleramos, e aí o problema é filosófico. O altruísmo, que o catolicismo semeou ao fazer do sacrifício a virtude suprema, e o marxismo adubou ao fazer do lucro um crime: o brasileiro trabalha, paga e ainda pede desculpas.

O paternalismo, legado do positivismo que fundou a República: diante de um problema, não pergunta "como resolvo isso?", mas "o que o governo vai fazer?". O cartorialismo, que presume a má-fé de todos: o cidadão clama por liberdade na segunda-feira, concedida por um carimbo na terça. O jeitinho, seu filho: contornar a regra em vez de derrubá-la. O identitarismo, que troca o indivíduo pela tribo e o mérito pela cota. E o corporativismo, que ensina ao empresário que comprar influência é mais barato que competir. Isso não é capitalismo. É fascismo com pitadas de comunismo.