Quem pode mais, paga mais

Há um velho argumento repetido à exaustão por setores do neoliberalismo econômico : impostos elevados desestimulam investimentos, reduzem competitividade e travam crescimento.

Por Admin ·

Quem pode mais, paga mais

No Reino Unido , surpreendente movimento desafia tal lógica. Um grupo de 120 milionários, entre eles o ex-jogador de futebol Gary Lineker , pediu ao governo o aumento dos impostos sobre as grandes fortunas .

Não é um gesto de culpa, mas a compreensão pragmática de que sociedades desiguais cobram um preço alto a todos, inclusive aos mais ricos.

A proposta é criar uma tributação de 2% sobre patrimônios superiores a 10 milhões de libras. Para os signatários, quem acumulou riqueza dessa magnitude tem plenas condições de contribuir mais para financiar políticas públicas , reduzir desigualdades e fortalecer a economia . Não se trata de penalizar empreendedores, mas corrigir uma distorção que concentra renda e poder em parcela cada vez menor da população.

No Brasil, enquanto se discute a tributação sobre altas rendas e grandes patrimônios , parte da elite econômica busca mecanismos para reduzir a carga tributária com planejamentos fiscais agressivos, ou antecipando distribuição de lucros antes da incidência de novos impostos. E fazem críticas aos gastos públicos voltados aos programas sociais, tratados como despesas improdutivas quando representam investimentos em estabilidade social e desenvolvimento humano. Segundo o FMI , das dez maiores economias do mundo, o Brasil está em último lugar no tamanho da dívida pública, e com índice inferior ao seu PIB .

Desigualdades nunca foram terreno fértil para a prosperidade duradoura. Países que negligenciam saúde, educação, segurança, habitação e reais oportunidades para os mais pobres têm violência, instabilidade e baixo crescimento econômico. Não é difícil entender tal dinâmica. A criança que vende doces nos semáforos, sem acesso à educação de qualidade, assistência social ou perspectivas de futuro, pode ser recrutada pelo crime organizado. O custo da omissão recairá sobre toda a sociedade.