O benefício uniu iniciativas novas, gestadas por dois anos no projeto Fome Zero, a outros programas de transferência de renda que já existiam no governo federal. Hoje, atende a cerca de 20 milhões de famílias por mês, transferindo um valor mínimo de R$ 600 a cada uma delas.
O programa nasceu de uma tentativa de integrar programas que funcionavam de maneira dispersa, com regras e estruturas administrativas próprias. O Bolsa Família incorpora o Bolsa Escola, o Bolsa Alimentação , o Auxílio-Gás e o Cadastro Único, criados em 2001, além do Cartão Alimentação.
"Juntar os instrumentos significava melhorar o alcance e a coerência da proteção, e não apenas trocar o nome de programas", afirma José Graziano da Silva, economista que coordenou a elaboração do Fome Zero e foi ministro extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome entre 2003 e 2004.
Segundo Graziano, a unificação foi resultado de um processo de discussão que envolveu diferentes áreas do governo. Ele destaca a atuação da historiadora Ana Fonseca, que liderou as discussões sobre a integração das transferências de renda, e diz que sem a coordenação política do presidente Lula, não seria possível definir o modelo de gestão que há hoje, com a capilaridade de um programa tão amplo.
O Bolsa Família foi criado pela medida provisória 132, de 20 de outubro de 2003, e instituído por lei em janeiro de 2004. Já no início, impactou 11 milhões de famílias que viviam abaixo da linha de pobreza e foi o responsável por tirar o Brasil do mapa da fome por duas vezes.
O programa chegou a ser encerrado na gestão de Jair Bolsonaro (PL) e substituído pelo Auxílio Brasil, mas foi retomado em 2023, quando Lula assumiu o terceiro mandato.
Para o pesquisador Luciano Gomes dos Santos, professor de Ciências Sociais do Centro Universitário Arnaldo Janssen, em Belo Horizonte (MG), o Bolsa Família deve ser entendido como uma construção histórica e institucional. "Ele responde a um problema do Brasil: a pobreza e a desigualdade", afirma.
À época, o programa uniu uma das maiores iniciativas de combate à fome no país, liderada pelo sociólogo Betinho, perseguido na ditadura militar. Veja abaixo a cronologia do Bolsa Família.
A história do programa passa pela mobilização da sociedade civil contra a fome e pela atuação de Ruth Cardoso , antropóloga e socióloga, e primeira-dama, que, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, presidiu o Conselho da Comunidade Solidária.
À frente da iniciativa, criada em 1995, Ruth procurou aproximar o governo das organizações da sociedade civil para articular ações de combate à pobreza . Sua atuação se somou a outras políticas e mobilizações que antecederam o Bolsa Família.
Entre elas estava a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, lançada em 1993 e associada ao sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, que mobilizou a sociedade brasileira em torno do combate à fome.
Naquele ano, foram criados programas federais unificados a outras iniciativas do Bolsa Família. Em abril de 2001, o governo instituiu o Bolsa Escola, que vinculava a transferência de renda a critérios relacionados à educação . Naquele ano, também surgiu o Bolsa Alimentação, voltado à área da saúde . Em 2002, foi criado o Auxílio-Gás, para ajudar famílias de baixa renda a comprar gás de cozinha .
O Cadastro Único, também de 2001, é hoje uma das bases do Bolsa Família, já que é onde estão as informações sobre as famílias de baixa renda.
Em outubro de 2001, o Instituto Cidadania apresentou o Projeto Fome Zero, coordenado por José Graziano e desenvolvido com a participação de pesquisadores, movimentos sociais, sindicatos e organizações da sociedade civil.
O diagnóstico era que a fome no Brasil não decorria da falta de alimentos, mas da desigualdade , que impedia parte da população de comprá-los.
Com base em dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 1999, o projeto estimava um público potencial de 44 milhões de pessoas, distribuídas em 9,3 milhões de famílias. Segundo Graziano, o número era uma estimativa construída a partir da renda e do risco de não conseguir comprar alimentos.
A proposta contava com medidas emergenciais, para atender quem precisava de comida imediatamente, e iniciativas destinadas a enfrentar as causas da pobreza. Entre elas estavam o apoio à agricultura familiar , o acesso à água e a criação de oportunidades de trabalho e renda.
O projeto também previa um programa de transferência de renda para ampliar a capacidade de compra de alimentos das famílias mais pobres e estimular a economia local.