Queda do presidente do Paraguai não muda relação com os EUA, mas fere narrativa da extrema direita na região

Há pouco mais de um ano, em setembro de 2025, Assunção foi sede da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), principal espaço de retroalimentação ideológica da extrema direita global. Com o presidente da Argentina, Javier Milei, e R

Por Admin ·

Queda do presidente do Paraguai não muda relação com os EUA, mas fere narrativa da extrema direita na região

Há pouco mais de um ano, em setembro de 2025, Assunção foi sede da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), principal espaço de retroalimentação ideológica da extrema direita global. Com o presidente da Argentina, Javier Milei, e Richard Grenell, conselheiro do presidente americano, Donald Trump , entre os palestrantes, o país sul-americano se apresentou como um tipo de paraíso ultraliberal, em que ideias conservadoras, incentivos fiscais e taxas de juro mínimas apontavam o caminho para o progresso. Com o impeachment nesta sexta-feira do presidente Santiago Peña — um dos oradores daquele evento em 2025 —, o campo narrativo deve ser o impactado imediato para além das fronteiras paraguaias.

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Fontes do governo brasileiro afirmaram ao GLOBO que Brasília olha com preocupação os possíveis efeitos da crise envolvendo a queda de Peña e a quebra do Ueno Bank, pontuando a importância de evitar um quadro de deterioração política no país vizinho, com quem mantém relações estratégicas. Apontaram também um possível enfraquecimento da influência da gestão Trump na América do Sul, que tinha no líder paraguaio um de seus principais aliados — que chegou a autorizar a presença de militares americanos em seu território . Analistas apontam que é pouco provável que a queda de Peña resulte em grandes mudanças nos rumos políticos do país.

— Não espero mudanças de política doméstica ou exterior. Acredito em um governo de continuidade — avaliou Flávia Loss, doutora em Relações Internacionais pela USP e professora do Instituto Mauá de Tecnologia. — Pedro Alliana [vice-presidente, que herda o cargo de Peña] vai assumir sob pressão, com os sistemas político e econômico fragilizados e protestos na rua. Todas as suas ações ficarão muito dependentes do Partido Colorado.

Força política mais influente do país desde 1947, tendo dado sustentação à ditadura do general Alfredo Stroessner e ficando fora da Presidência em apenas dois governos desde a redemocratização em 1989, o Partido Colorado se somou à oposição e, apesar de ter maioria na Câmara e no Senado, ajudou a derrubar Peña — com um rompimento público entre o atual líder do partido e homem mais rico do Paraguai , Horacio Cartes, com o agora ex-presidente. A avaliação da analista é que, com o grupo político preservado no poder, as relações de longo prazo tendem a não se alterar

— A aliança [Assunção-Washington] não dependia de Peña. Ele até era um bom garoto-propaganda, por ser jovem, economista... Mas Washington tem interesses estratégicos, incluindo um muito grande pelo excedente de energia elétrica de Itaipu, dentro do plano de trazer data centers para a América do Sul — argumentou Loss.

Em contrapartida, o professor Juan Agulló, da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) e membro do Comitê Diretivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais, afirma que a amplitude da relação a partir da mudança de governo é incerta. Cartes, aponta Agulló, teve problemas com Washington, sendo acusado de corrupção e obstrução de investigações de crimes internacionais . Seria necessário entender o alinhamento de Alliana após chegar ao poder.

— Considerando o cenário atual e a relação de Cartes com os EUA, é possível projetar que [o Paraguai] não se alinharia tanto com os EUA. Não haveria um alinhamento automático com o Brasil, mas creio que seria uma posição mais discreta — indicou o professor. — Com uma situação tão delicada, não é de se descartar que alguns dos negócios imediatos fiquem congelados.

Agulló aponta ainda a dificuldade de dimensionar o tamanho da instabilidade no "curtíssimo prazo", até que o Banco Central consiga devolver o dinheiro das pessoas afetadas pela quebra do Ueno Bank. O professor aponta que o impacto não gerou "mera insatisfação política", e com "alto potencial de instabilidade".

A perda de credibilidade de uma das faces mais visíveis da cooperação sul-americana com o atual governo Trump oferece alternativas de contraposição à narrativa que vinha se mostrando dominante para outras forças políticas regionais, na opinião de Loss.

— A queda de Peña traz uma fratura na narrativa da extrema direita na região — disse. — O Paraguai tinha virado um símbolo dessa narrativa de que a única alternativa para a região seria a continuidade de políticas neoliberais ou até além disso, como as propostas de anarcocapitalismo de Javier Milei. Agora, [a crise paraguaia] pode ser utilizada pela esquerda ou mesmo pela direita tradicional dos países do continente para quebrar um pouco essa ideia de que todas as respostas são dadas por um Estado diminuído.