O esgotamento da era de crescimento pujante da Europa e de maiores gastos com bem-estar social subjaz à onda de protestos que se espalha por ao menos sete países da região governados por partidos de diferentes matizes ideológicos.
Na França , manifestações iniciadas em meados de setembro por estudantes que reclamavam de falta de recursos e de professores ganharam adesão de diversos setores que se opõem à expansão do custo de vida. Desde segunda (19), toques de recolher são adotados em diversas cidades.
Na Espanha , a partir do final de setembro, após o despejo de uma idosa em Madri, a população foi às ruas contra a alta dos preços dos aluguéis. Desgastado pela rejeição do Parlamento a seu projeto sobre moradias, o governo socialista de Pedro Sánchez antecipou as eleições legislativas para o dia 29 de novembro, mesmo sob risco de vitória da ultradireita.
Nas últimas semanas , manifestações eclodiram ou se intensificaram em Bélgica , Itália , Portugal , Albânia e Grécia , num movimento que sinaliza fragilidade dos governos e oportunismo de setores políticos radicais.
Na França, a onda de protestos atraiu o apoio da extrema esquerda de Jean-Luc Mélenchon, mas suas cenas de vandalismo têm sido capitalizadas pela ultradireita de Marine Le Pen . Ambos são pré-candidatos à sucessão de Emmanuel Macron nas eleições de 2027.
O fenômeno indica, ainda, a dificuldade da cidadania europeia em assimilar a incontornável restrição orçamentária. E, se a estrutura econômica do continente não mais responde aos anseios da sociedade, a atual conjuntura geopolítica em nada alivia o conflito político-social latente.
Por pressão dos Estados Unidos e da guerra na Ucrânia , os países europeus da Otan se comprometeram a elevar os gastos com defesa e segurança a 5% do PIB até 2035. A guerra dos EUA contra o Irã impulsiona as altas da inflação e dos juros , que penalizam famílias e setores produtivos e sufocam países com dívidas elevadas —nos casos de França, Espanha, Bélgica e Itália, acima de 100% do PIB.
A desilusão popular é compreensível e o direito de protestar deve ser preservado, observando-se a necessidade de garantir a segurança de todos os cidadãos e a integridade do patrimônio público.
A crise fiscal europeia, agravada pelo envelhecimento populacional, por óbvio exige ações de longo prazo. O risco mais imediato para o continente, e também para o mundo, é a exploração oportunista dos protestos por forças políticas notadamente pouco comprometidas com o Estado democrático de Direito.