Protestos na França levam fragilidade econômica às ruas

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Por Admin ·

Protestos na França levam fragilidade econômica às ruas

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Há pouco mais de um mês, a economia francesa já preocupava quem acompanha de perto o país: dívida em patamar recorde, orçamento travado no Parlamento, poder de compra em queda. Até então, porém, essa fragilidade era sobretudo um dado de mercado, visível nos juros da dívida pública, mas distante do dia a dia do francês comum. As manifestações que tomaram as ruas nas últimas semanas mudaram isso —nesta quarta-feira, 21, os juros dos títulos de dez anos tocaram pela primeira vez desde 2002 a marca simbólica de 5%, no mesmo momento em que a rua expõe , de um jeito que nenhum gráfico consegue, a fragilidade que os investidores já vinham sentindo.

O gatilho mais citado nos protestos é o custo de vida . Desde 2019, a inflação acumulada supera os salários em quase três pontos percentuais, e o poder de compra das famílias recua pelo segundo ano seguido, algo que só havia ocorrido duas vezes desde 1960: no ajuste de 1983-84 e na ressaca da crise financeira, entre 2010 e 2013. Uma família com dois adultos e dois filhos perdeu, ao longo desses dois anos, 1.200 euros no total em valores reais, calculou o Instituto Francês de Economia para o Le Monde. Quem sente mais o aperto é a pequena classe média, a faixa que ganha perto do salário mediano de 2.200 euros líquidos por mês.

Há também a crescente sensação de que o Estado protetor está rachando. Os serviços de saúde e aposentadoria ainda funcionam, mas o governo já propôs desindexar as pensões da inflação e cortar gastos de saúde para tentar conter um déficit que financia uma fatia de quase um terço do PIB em proteção social —a segunda maior da União Europeia, atrás só da Finlândia. É também questão de relógio demográfico: em 2025, pela primeira vez desde 1945, a França registrou mais mortes do que nascimentos.

A isso soma-se a incerteza da eleição presidencial , a seis meses do primeiro turno. As pesquisas dão a candidata da extrema direita , Marine Le Pen, como grande favorita no segundo turno, em maio, e investidores temem que nem ela nem o esquerdista Jean-Luc Mélenchon apresentem um plano crível para as contas públicas. É um receio que ajuda a explicar por que os juros da dívida, que rondavam 3,5% no início do ano, ultrapassam hoje os 5%.

Nada no calendário dos próximos meses sugere que a tensão vai arrefecer. Para o próximo sábado, dia 24, a coordenação que organizou os protestos do dia 17 já convocou um segundo ato, e as cinco centrais sindicais (CGT, CFDT, FO, Unsa e FSU) chamaram uma greve geral para 5 de novembro, a primeira grande mobilização intersindical desde o início da crise. O orçamento de 2027, que prevê justamente os cortes que irritam a rua, segue em discussão explosiva na Assembleia Nacional, e a campanha presidencial deve azedar ainda mais o debate sobre quem paga a conta do ajuste fiscal. Os protestos, longe de se esgotarem, devem se intensificar nas próximas semanas e meses.

A França é a sétima maior economia do mundo e a segunda da zona do euro, atrás da Alemanha. Analistas apontam risco de contágio a outros países do bloco caso a situação piore. O Banco Central Europeu, porém, só costuma agir quando a turbulência ultrapassa as fronteiras francesas.

Nas primeiras horas depois da violência do dia 17, formou-se um quase-consenso entre analistas: a c andidata mais beneficiada seria Marine Le Pen, por encarnar a ruptura com uma ordem que já não garante a ordem. A primeira pesquisa divulgada depois do fim de semana, do Ifop-Fiducial para Le Figaro, Sud Radio e LCI, confirma a tese: a candidata do Reunião Nacional avançou de 1 a 2 pontos no primeiro turno, para uma faixa de 34% a 38%, patamar inédito no histórico do instituto —sinal, para seu diretor Frédéric Dabi, de que ela é a única a sair fortalecida da sequência, como representante do "partido da ordem". No segundo turno, amplia a vantagem sobre os cinco adversários testados, batendo de 56% a 68%, bem acima dos 41,5% que tirou contra Macron em 2022. Do lado governista, nem Édouard Philippe, do Horizons (centro-direita), nem Gabriel Attal, do Renascimento (centro, partido do próprio Macron), se qualificam para o segundo turno em nenhum cenário.

A plataforma econômica de Le Pen promete 140 bilhões de euros em economia até 2032, boa parte concentrada em cortes ligados à imigração (até 29 bilhões por ano), numa reorganização do Estado (20,7 bilhões) e em ajustes nas pensões (15 a 20 bilhões), sem que o partido tenha apresentado sua própria reforma da previdência. Entre os cortes sociais anunciados estão a transformação da ajuda médica a imigrantes em situação irregular num auxílio mais restrito e o fim de benefícios não contributivos para estrangeiros. Economistas duvidam das contas: Éric Delannoy, da consultoria Tenzing, disse ser "impossível" alcançar o nível de economia que o RN reivindica, e o Alto Conselho de Finanças Públicas já descartou como pouco crível a economia prevista só com o combate à fraude fiscal.

Esses cortes seguem a mesma direção do ajuste que o governo atual tenta fazer e que motiva parte dos protestos. É difícil imaginar que, aplicados por um eventual governo Le Pen, não provoquem a mesma reação nas ruas: sindicatos, estudantes e os movimentos de hoje teriam motivo de sobra para repetir o roteiro contra ela. A candidata que hoje colhe os votos de quem rejeita a austeridade propõe, ela mesma, uma versão dela.

Houve uma manipulação estrangeira da informação, que deu origem a comentários tão inaceitáveis quanto estúpidos por parte de muita gente, inclusive de líderes estrangeiros

As companhias aéreas europeias entram no inverno do Hemisfério Norte com o sinal de turbulência aceso. O setor se prepara para uma alta expressiva nas tarifas, puxada pelo choque no preço do combustível desencadeado pela guerra do Irã . O alerta mais duro veio de Michael O'Leary , presidente da Ryanair, maior companhia aérea de baixo custo da Europa: "É uma crise em toda a extensão da palavra. Todo mundo vai sofrer no ano que vem", disse ele ao Financial Times. O'Leary espera que o combustível de aviação, hoje em torno de US$ 1.300 por tonelada contra uma média histórica de US$ 700, continue caro até pelo menos 2028.

A pressão já levou easyJet e Lufthansa a cortar voos neste inverno, e a Delta reduziu sua previsão de lucro citando um custo extra de US$ 6 bilhões com combustível. Para Luis Gallego, presidente da IAG, controladora da British Airways, "empresas de porte médio e pequeno vão sofrer, e algumas vão chegar bem perto de desaparecer".

O que monitorar até a próxima quarta-feira (28)

Moody's decide o rating da França (sexta-feira, 23) — a agência revisa a nota soberana francesa, hoje Aa3 com perspectiva negativa. Há três cenários: manutenção da nota e da perspectiva negativa, rebaixamento para A1, ou mudança da perspectiva para estável. O anúncio costuma vir à noite, depois do fechamento dos mercados europeus.

Segundo ato geral de protestos em Paris (sábado, 24) — nova mobilização convocada pela coordenação que organizou os atos de 17 de outubro. O tamanho e o grau de violência serão testados de novo, com peso tanto no humor político quanto na leitura que o mercado fará da França na semana seguinte.

Eleição legislativa em Israel (terça-feira, 27) — o Parlamento foi dissolvido em 17 de julho, abrindo caminho para o pleito. É o primeiro teste eleitoral de Binyamin Netanyahu desde o cessar-fogo em Gaza, em outubro de 2025 - uma trégua formal, mas que não interrompeu a violência nem levou ao desarmamento do Hamas.

Dérèglement: Ce que la France refuse de voir (O Grande Descontrole: o que a França se recusa a ver) , de Pierre Vermeren (Odile Jacob)

O historiador da Sorbonne lançou no mês passado um diagnóstico duro sobre o país — com um timing perfeito, poucas semanas antes de a crise explodir nas ruas. Para Vermeren, a França vive uma "derrota estranha", ao mesmo tempo financeira e moral, sem ter sido invadida ou derrotada em guerra, como em 1870 ou 1940. O livro percorre a dívida pública, a desindustrialização e a fragmentação do território — e termina defendendo que o país ainda pode se recuperar, desde que resgate também a lucidez que, para o autor, falta às suas elites.