Protagonista da política em Israel há 30 anos, Netanyahu vê em jogo nas eleições projeto de remodelar Oriente Médio à sua imagem

27/10/2026 00h00 Atualizado 27/10/2026 11h33 “Estamos no olho do furacão, e precisamos ser muito fortes, muito inteligentes e muito experientes”, afirmou o premier israelense, Benjamin Netanyahu , em entrevista a poucos dias das eleições g

Por Admin ·

Protagonista da política em Israel há 30 anos, Netanyahu vê em jogo nas eleições projeto de remodelar Oriente Médio à sua imagem

27/10/2026 00h00 Atualizado 27/10/2026 11h33

“Estamos no olho do furacão, e precisamos ser muito fortes, muito inteligentes e muito experientes”, afirmou o premier israelense, Benjamin Netanyahu , em entrevista a poucos dias das eleições gerais que podem definir o futuro do país e que também servem como um novo referendo sobre seu poder. Mais influente político da História moderna de Israel , “Bibi”, seu apelido nos bastidores, comandou o governo por 19 anos, durante os quais remodelou acordos internos, liderou guerras e ocupações e ainda tenta avançar no projeto pessoal para o Oriente Médio .

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Nascido um ano depois da fundação do Estado de Israel, Netanyahu passou sua juventude nos Estados Unidos e, com outros jovens da diáspora judaica, voltou ao país ao final do Ensino Médio para se juntar às Forças Armadas. Nos anos 1960 e 1970, participou de conflitos como a Guerra do Yom Kippur, em 1973, e construiu suas conexões com o meio político israelense e, especialmente, americano. Na década seguinte, quando já apresentava publicamente sua objeção a um Estado palestino independente — uma das bandeiras que o acompanha desde o início —, foi embaixador de Israel na ONU e travou os primeiros laços amistosos com a família do atual presidente dos EUA, Donald Trump .

Sua chegada ao poder ocorreu em um dos momentos mais trágicos da política israelense: em 1995, o então premier Yitzhak Rabin foi assassinado por um ultranacionalista contrário aos Acordos de Oslo, que tentavam criar caminhos para a paz na Terra Santa e as bases para um futuro Estado Palestino. Crítico da iniciativa, Netanyahu comandou a vitória do Likud sobre os Trabalhistas nas eleições de maio de 1996, dando início ao primeiro capítulo da longa trajetória no governo. Um período marcado por atentados, divergências, denúncias de corrupção e pela derrota para Ehud Barak em 1999.

Embora tenha se classificado como “carcaça política”, referindo-se aos obituários eleitorais publicados nos jornais, movimentava-se para retornar ao governo. Com Ariel Sharon, esteve à frente das pastas de Relações Exteriores e Finanças e foi publicamente contra a retirada de Gaza , em 2005.

Como líder da oposição, foi feroz contra o apaziguamento com os palestinos e protagonizou embates com o governo de Barack Obama nos EUA: durante um desabafo captado por microfones na cúpula do G20 em 2011, quando ouvia as queixas do então presidente francês, Nicolas Sarkozy, sobre o israelense, Obama respondeu que “você pode estar de saco cheio dele, mas eu... eu tenho que lidar com ele todos os dias” .

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Apesar de intrigas pontuais com a Casa Branca, onde sempre foi recebido por democratas e republicanos, Netanyahu ganhou corpo em seu retorno ao poder nas eleições de 2009. Se aproveitando do desarranjo de siglas tradicionais, como os Trabalhistas, apresentou-se como líder indispensável, que garantiria a segurança do país em um mundo cada vez mais incerto.

A porta para um acordo com os palestinos estava definitivamente fechada: Netanyahu reiterou, em mais de uma ocasião, que “não repetiria os mesmos erros”, referindo-se à retirada de Gaza. Na Cisjordânia , promoveu o avanço das colônias judaicas, ilegais sob a lei internacional, e ampliou as restrições aos moradores dos territórios ocupados. Em 2014, lançou uma violenta ofensiva em Gaza que alguns veem como um prelúdio para o conflito atual . Os 12 anos no poder lhe deram espaço ainda para globalizar uma de suas obsessões desde a década de 1980: o Irã e as acusações repetidas por mais de três décadas de que o país estava a alguns meses de ter uma bomba nuclear.

— Até a próxima primavera, ou, no máximo, até o próximo verão, considerando as taxas atuais de enriquecimento, eles (Irã) terão concluído o enriquecimento de nível médio e passarão para a etapa final — disse em 2012, em discurso na Assembleia Geral da ONU, segurando uma imagem de uma bomba que parecia tirada de um desenho do Papa-Léguas — A partir daí, bastarão apenas alguns meses, talvez até algumas semanas, para que obtenham urânio enriquecido suficiente para a primeira bomba.

Em 2015, quando foi firmado o acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano, Netanyahu disse que era um “erro histórico”, que daria ao país um “caminho certo para as armas nucleares”. Para seu alívio, um ano depois seu velho amigo Trump chegou à Presidência com a promessa de rasgar o acordo, o que fez em 2018, e de dar a Israel (e ao premier) carta branca para seus planos.

A troca da embaixada para Jerusalém abriu caminho para que outras nações próximas ao trumpismo seguissem o exemplo, quebrando um tabu de décadas . O reconhecimento das Colinas de Golã, território sírio anexado em 1967, como parte de Israel pelos EUA foi mais um trunfo . Os Acordos de Abraão, firmados em 2020, estabeleceram relações diplomáticas com quatro países árabes — Emirados Árabes Unidos , Bahrein , Marrocos e Sudão — e foram celebrados como passo crucial para o isolamento de Teerã e uma “nova era” na região.

Mas os sorrisos externos contrastavam com os problemas internos. As denúncias de corrupção avançavam a passos lentos, mas em 2019 se transformaram em um indiciamento e, no ano seguinte, foram levadas ao tribunal, em um processo ainda sem conclusão. Em paralelo, cultivou alianças com os elementos mais radicais da política israelense, que o ajudaram a retornar ao poder após um breve hiato entre 2021 e 2022, no que ficou conhecido como o Gabinete mais à direita da História israelense. O avanço das colônias judaicas na Cisjordânia bateu recordes, e se falava abertamente na anexação total do território. Um Estado palestino parecia, mais uma vez, enterrado.

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Para um primeiro-ministro que dizia ser o único capaz de proteger Israel, os ataques do Hamas no dia 7 de outubro de 2023 soaram não apenas como o maior massacre em solo israelense desde 1948, mas também um símbolo do fracasso do governo em cumprir suas promessas.

Quase 1,2 mil pessoas morreram naquela manhã de sábado, e a resposta veio em uma ofensiva brutal contra Gaza — segundo números das autoridades locais, referendados pela ONU, 74 mil pessoas morreram, centenas de milhares ficaram feridas e 2 milhões de habitantes foram deixados à própria sorte. Hoje, poucas estruturas estão de pé, e os israelenses ocupam a maior parte do território. Em 2024, foi emitida uma ordem de prisão pelo Tribunal Penal Internacional contra o premier , em paralelo ao processo na Corte Internacional de Justiça que analisa acusações de genocídio contra Israel.

A guerra lhe deu pretextos para avançar com antigos planos em áreas próximas. No Líbano , bombardeios eliminaram as lideranças do Hezbollah e abriram caminho para o estabelecimento de uma “zona de segurança” na fronteira, criada em um cenário de terra arrasada e comunidades devastadas. Mesmo com a troca no comando da Síria , bombardeios são frequentes, e há planos para uma nova “zona de segurança” no país.

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Era também uma oportunidade única para derrubar o regime no Irã. As trocas de mísseis em 2024 e 2025 foram os capítulos iniciais para a guerra lançada em fevereiro ao lado dos EUA. Líderes foram mortos, a começar pelo aiatolá Ali Khamenei, e as capacidades militares do país foram abaladas. Mesmo assim, o Estreito de Ormuz segue parcialmente fechado, o comando do país está nas mãos de elementos ainda mais radicais e os efeitos do conflito são sentidos ao redor do Oriente Médio.

Nos últimos dias, surgiram relatos na imprensa internacional sobre planos feitos com Trump, que também enfrenta eleições difíceis em novembro, para a retomada dos bombardeios em algumas semanas. Em Israel, os ataques ao Irã são extremamente populares e foram usados à exaustão na campanha para angariar votos.

Para o longevo premier, cuja aposentadoria foi decretada tantas vezes, pode ser a chance de finalmente alcançar seu objetivo de enterrar a República Islâmica ou de ser lembrado como alguém que fracassou ao tentar remodelar a região à sua imagem.

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