Empresas de comércio e locação de veículos, distribuidoras de medicamentos, supermercados, açougues, transportadores, construtoras e empresas de tecnologia da região metropolitana de São Paulo teriam sido usados no esquema, segundo a denúncia apresentada à Justiça na última terça-feira (3).
Advogados de defesa dos denunciados afirmam que não houve lavagem de dinheiro, que a Promotoria trata como crime situações lícitas e regulares, e que a origem dos valores pode ser comprovada.
A denúncia é um desdobramento da Operação Falso Mercúrio , deflagrada pela Polícia Civil em dezembro de 2025, que levou ao bloqueio de R$ 6 bilhões no patrimônio de investigados.
Além dos denunciados nessa última fase, há outros 17 réus em dois processos ligados à operação que respondem por acusações de tráfico de drogas, exploração ilegal de jogos de azar, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Segundo a Promotoria de Justiça atuante perante a Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Dinheiro da capital, o grupo denunciado participou da movimentação clandestina de mais de R$ 98 milhões em três anos, que teriam origem no tráfico de drogas e na exploração de máquinas caça-níqueis.
O valor tem como base a análise de documentos encontrados com os suspeitos. Um relatório policial aponta que o total movimentado pelo grupo seria ainda maior. As defesas apontam que a investigação não comprovou a origem ilícita de todos os valores citados.
A denúncia tem como foco os suspeitos de serem intermediários, coletores de dinheiro e laranjas do esquema.
A promotoria afirma que todos contribuíam para o funcionamento de um serviço criminoso que visava esconder a origem do dinheiro, os controladores das contas bancárias e os beneficiários finais. Os investigados considerados coordenadores do esquema já são réus nos outros processos .
No cerne da investigação está a prática da "compra de dinheiro": suspeitos recebiam grandes quantidades de dinheiro vivo e, em contrapartida, faziam depósitos bancários a pessoas e empresas indicadas pelos fornecedores do numerário. Eram cobradas comissões que variavam de 1,5% a 4% pelas operações.
Entre as firmas investigadas estão 13 empresas que firmaram ao menos 66 contratos com 11 prefeituras do estado de São Paulo num período de quatro anos. Os contratos e seus aditivos correspondem a R$ 522,3 milhões repassados dos cofres municipais para essas companhias suspeitas.
"Empresários simulavam relações comerciais fictícias, sem lastro real, remetendo valores teoricamente lícitos de seu faturamento via transações bancárias a narcotraficantes, exploradores de jogos de azar e até de sonegadores de tributos", escreveu a promotora Fabíola Cezarini.
A investigação afirma que parte desses valores devolvidos em depósitos bancários era mesclada com o faturamento de atividades econômicas regulares, com a intenção de dificultar a fiscalização dos órgãos de controle.
Eduardo Moreno Lopes, sócio de uma rede de postos de gasolina, é apontado como coordenador do esquema. A promotoria afirma que ele operava contas bancárias de empresas registradas em nome de terceiros para conseguir fazer a troca de dinheiro vivo por depósitos.
Parte importante das transações era feita por meio da empresa Key Car, loja de veículos baseada em Osasco (SP). Os sócios, que estão presos desde dezembro , disponibilizavam o dinheiro vivo, diz a Promotoria.