Chineses já eram alvo de investigação sobre suspeita de concorrência desleal de proteína da soja; governo diz que ainda analisa denúncia
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Brasília Empresas que produzem proteína de soja no Brasil pediram ao governo Luiz Inácio Lula da Silva que adote medidas comerciais imediatas contra a China , maior compradora do grão brasileiro . O setor aponta concorrência desleal chinesa ligada a um produto específico, a proteína de soja, ingrediente industrial usado na fabricação de alimentos como salsichas, mortadelas, hambúrgueres e suplementos.
Conforme informações obtidas pela Folha , o pleito, inicialmente encabeçado por duas grandes empresas do setor, a ADM e Solae, conta com o apoio da Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais), que tem a ADM como associada.
A associação acionou o Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Camex) neste mês cobrando ações imediatas. Os produtores querem que o Brasil imponha uma cobrança adicional e provisória sobre as importações do ingrediente da China.
O desejo é que essa taxa extra entre em vigor assim que possível, sem esperar a conclusão de uma investigação que já está em curso desde abril e que foi aberta pelo governo brasileiro, para apurar uma suspeita de dumping. A ADM e a Solae são as autoras do pedido.
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A prática de dumping ocorre quando uma empresa vende um produto ao exterior por um preço inferior ao que cobra em seu próprio país. O fato de um produto estrangeiro ser mais barato que o brasileiro, sozinho, não comprova a irregularidade, mas vendê-lo abaixo daquilo que é praticado na própria origem pode ser considerado estratégia ilegal para conquistar mercados ou escoar estoques.
A movimentação expõe uma disputa dentro de uma das principais cadeias do agronegócio nacional. Em 2025, a China, que é o principal mercado mundial do Brasil, comprou 85,6 milhões de toneladas de soja em grãos do Brasil, ao preço total de US$ 34,7 bilhões. O volume chegou a 79% dos grãos exportados pelo país. De janeiro a setembro deste ano, as vendas aos chineses já somam 70,3 milhões de toneladas e US$ 30,2 bilhões, segundo dados do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio).
Vai tudo bem, portanto, no mercado dos grãos de soja. Na arena das proteínas, porém, o cenário está conflagrado. Fabricantes instalados no Brasil reclamam da concorrência chinesa nesta etapa industrial, quando o grão é transformado em ingrediente com maior concentração de proteína.
"A indústria brasileira dispõe de capacidade para suprir o mercado doméstico. A persistência das importações em condições desleais de concorrência tem contribuído para a ociosidade da capacidade industrial instalada e compromete a sustentabilidade dos investimentos realizados no país", afirma a Abiove, em documento assinado em 7 de outubro por seu presidente executivo, André Nassar.
A associação cita, como exemplo de investimentos já realizados no Brasil, o caso da multinacional ADM, dos Estados Unidos. "A ADM, por exemplo, investiu aproximadamente R$ 1 bilhão na implantação de sua unidade de proteínas de soja em Campo Grande (MS), inaugurada em 2018", diz a Abiove.
A instituição destaca, ainda, que a empresa mantém um centro de pesquisa e desenvolvimento em Hortolândia (SP), "que atua como hub global no desenvolvimento de novas tecnologias e produtos para a linha de proteínas vegetais, objeto de investimentos de mais de R$ 55 milhões".
O pleito assinado pela associação foi enviado a cada um dos membros do Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior, órgão ligado ao Mdic que reúne representantes de dez ministérios para decidir sobre tarifas e medidas de defesa comercial.
À Folha o Mdic declarou que "uma medida de antidumping provisório somente pode ser aplicada se houver uma determinação preliminar emitida pelo Departamento de Defesa Comercial que conclua positivamente pela existência de dumping, de dano à indústria doméstica e de nexo causal entre o dumping e o dano" alegado pelo setor.
"Na investigação em questão, o Decom ainda não emitiu determinação preliminar. Portanto, no momento, ainda não é possível a imposição de medida provisória", afirmou a pasta.
Além disso, segundo o Mdic, a Camex deve entender que a medida é necessária para impedir o agravamento ou continuação do dano durante a investigação.
A ADM disse que não vai se manifestar spbre o tema. A Abiove também afirmou que não vai comentar. A Solae afirmou, por meio de nota, que reafirma seu pedido de abertura de investigação de defesa comercial relacionada às importações de proteína de soja.
"Respeitamos o processo de defesa comercial estabelecido pelo governo brasileiro e seu papel na avaliação dessas questões, de acordo com a legislação aplicável e as regras do comércio internacional", declarou.
A eventual adoção da medida emergencial recairia sobre a importação do ingrediente chinês. Ao aumentar seu custo no mercado brasileiro, a cobrança pode trazer proteção aos fabricantes locais, mas empresas de alimentos que compram essa proteína teriam aumento de despesa.
A Abiove não apresentou uma sobretaxa específica em sua carta ao governo, mas apontou que estimativas do setor indicam um impacto entre 0,33% e 1,89% sobre o preço final de produtos processados de carne.
Isso significa que, em um alimento vendido por R$ 20, por exemplo, esses percentuais levariam a um acréscimo entre R$ 0,07 e R$ 0,38, alta que a associação classificou como "impacto limitado que uma medida de defesa comercial teria sobre os segmentos consumidores".
A investigação comercial sobre o assunto foi recebida pelo Mdic em 14 de abril, após um pedido apresentado pelas empresas ADM e Solae do Brasil. Assim como a ADM, a Solae tem origem americana e pertence a um grupo IFF (International Flavors & Fragrances).
O governo brasileiro encontrou indícios suficientes para iniciar a apuração, mas a abertura do procedimento não equivale a uma conclusão definitiva sobre a prática ou prejuízos alegados. Por isso, enquanto o caso segue em andamento, o setor cobra medidas provisórias e imediatas.
"A Abiove entende que a aplicação de direito antidumping provisório, observados os requisitos previstos na legislação brasileira, constitui medida necessária para impedir o agravamento do dano à indústria doméstica enquanto prossegue a investigação", diz a associação no documento enviado ao governo.
A representante do setor afirma que deixar de aplicar a taxa provisória "poderá ampliar a pressão sobre preços, reduzir ainda mais a utilização da capacidade instalada e inibir novos investimentos no setor", mas não detalha esse impacto.
Os dados de importação do governo mostram crescimento das compras de proteína de soja chinesa nos últimos anos. As entradas no Brasil saíram de 4,5 mil toneladas em 2017 para 8,5 mil toneladas em 2025, alta de 88,3%. No pico, em 2024, chegaram a 10,3 mil toneladas.
De janeiro a setembro de 2026, as compras do produto chinês somaram cerca de 7 mil toneladas, o equivalente a 82% do registrado em todo o ano de 2025.
A proteína industrializada da soja é extraída a partir da separação de componentes do grão e passa por processamento, para elevar a concentração proteica. O produto investigado no Brasil é destinado à nutrição humana.
Esse ingrediente ajuda a compor alimentos e a dar textura, retenção de água e rendimento. Além de carnes processadas e embutidos, é usado na indústria de suplementos e bebidas.