Praticar exercícios antes de uma cirurgia melhora os resultados e reduz o tempo de recuperação, diz nova pesquisa

26/10/2026 04h30 Atualizado 26/10/2026 04h30 Globalmente, cerca de duas em cada três pessoas precisarão passar por uma cirurgia de grande porte em algum momento da vida. Ao se preparar para uma operação assim, os pacientes geralmente se c

Por Admin ·

Praticar exercícios antes de uma cirurgia melhora os resultados e reduz o tempo de recuperação, diz nova pesquisa

26/10/2026 04h30 Atualizado 26/10/2026 04h30

Globalmente, cerca de duas em cada três pessoas precisarão passar por uma cirurgia de grande porte em algum momento da vida.

Ao se preparar para uma operação assim, os pacientes geralmente se concentram na cirurgia em si. Mas a recuperação também exige bastante do organismo.

É importante ter uma reserva cardiorrespiratória adequada — a capacidade extra do corpo para atender a um aumento repentino da demanda por oxigênio, seja ao subir uma ladeira a pé, seja ao enfrentar uma infecção.

Essa reserva também ajuda as pessoas a lidar com o estresse da cirurgia, a inflamação e o esforço necessário para voltar a se movimentar.

Usar o período que antecede a cirurgia para melhorar o condicionamento físico e preparar o organismo para a recuperação é o que se chama de “pré-habilitação”. Ela pode incluir exercícios físicos, suporte nutricional, preparação psicológica e medidas para garantir que outras condições médicas estejam sob controle.

Os exercícios costumam ser o componente central, mas uma questão importante permanece: faz diferença se os pacientes se exercitam sob supervisão ou eles podem obter benefícios semelhantes fazendo exercícios em casa, por conta própria?

Nossa nova metanálise examinou essa questão. Reunimos evidências de 42 estudos que envolveram 4.825 adultos, incluindo pessoas que se preparavam para cirurgias colorretais, pulmonares, cardíacas, vasculares e outras operações de grande porte.

A resposta é animadora, mas não é tão simples quanto dizer que “a supervisão é melhor”.

Trinta dos estudos incluídos utilizaram exercícios supervisionados, enquanto 12 adotaram exercícios sem supervisão. Os exercícios supervisionados eram realizados em hospitais ou instalações destinadas à prática de atividades físicas, com a presença de profissionais de saúde ou de educação física.

Os exercícios sem supervisão geralmente eram feitos em casa, com apoio de instruções, diários de exercícios ou outras formas de monitoramento.

Nenhum dos estudos comparou diretamente exercícios supervisionados e não supervisionados no mesmo ensaio clínico. Em vez disso, comparamos os resultados de grupos distintos de estudos. Isso significa que os achados mostram associações, e não uma relação de causa e efeito.

Os dois tipos de programa foram associados a melhoras no teste de caminhada de seis minutos, uma medida prática da capacidade funcional. A diferença entre os programas de exercícios e os cuidados habituais (sem um programa de exercícios) foi estatisticamente significativa, mas não houve evidências claras de que um dos tipos de programa fosse superior ao outro.

Isso sugere que muitos pacientes podem melhorar a capacidade de caminhar por meio de um programa estruturado de exercícios, mesmo quando realizado em casa.

No entanto, a magnitude da melhora na distância percorrida foi pequena: menos de um metro, em média, nas análises. É improvável que essa mudança represente uma melhora significativa da capacidade funcional nas atividades cotidianas para a maioria dos pacientes.

Um padrão diferente surgiu na análise das complicações pós-operatórias. A prática de exercícios aeróbicos antes da cirurgia foi associada a menores chances de complicações. Mas essa associação foi observada apenas nos estudos com exercícios supervisionados.

Os exercícios supervisionados foram associados a uma redução de cerca de 40% nas chances de uma complicação pós-operatória. A associação foi mais forte nas análises de exercícios de alta intensidade, nos quais as chances de complicações foram aproximadamente reduzidas à metade em comparação com os cuidados habituais.

Os estudos incluíram diferentes grupos de pacientes e combinações de exercícios, suporte nutricional e apoio psicológico. Os programas supervisionados tinham maior probabilidade de incluir exercícios de alta intensidade, enquanto os estudos sem supervisão envolviam, em sua maioria, atividades de menor intensidade.

Diante dessas diferenças, não podemos afirmar com certeza que a supervisão tenha sido o fator determinante. Os resultados podem refletir, em parte, diferenças na intensidade dos exercícios, nos pacientes recrutados, nas operações realizadas ou em outros componentes dos programas.

Por que a intensidade dos exercícios pode fazer diferença

O condicionamento cardiorrespiratório descreve a eficiência com que uma pessoa utiliza oxigênio durante a prática de exercícios. Uma das medidas mais comuns é o consumo de oxigênio de pico (VO₂pico). Em nossa revisão, houve melhora do VO₂pico apenas entre os participantes dos estudos com exercícios supervisionados. A maioria desses programas incluía intervalos de exercícios intensos.

A supervisão pode ajudar de várias maneiras. Um profissional de saúde ou de educação física pode avaliar se o exercício é seguro, monitorar sintomas e aumentar progressivamente a intensidade.

Há também um componente comportamental. Participar de uma sessão supervisionada cria uma rotina e um compromisso. Pode ser mais fácil enfrentar exercícios exigentes quando há alguém por perto para incentivar.

Para os pacientes, a orientação prática é perguntar à equipe cirúrgica ou de atenção primária se há programas de pré-habilitação disponíveis e que tipo de exercício é adequado. O ideal é que o programa inclua uma prescrição clara de exercícios, uma forma de monitorar o progresso e orientações sobre quando interromper a atividade.

Nossos achados sugerem que a supervisão pode ser particularmente valiosa quando o objetivo é realizar exercícios de alta intensidade.

Mas qualquer forma de pré-habilitação deve ser segura e acessível. Ferramentas digitais, como aplicativos de exercícios, podem ajudar, assim como o apoio de familiares ou cuidadores, desde que haja orientações adequadas.

Nenhum estudo comparou diretamente exercícios supervisionados e não supervisionados. Portanto, não sabemos se a supervisão é significativamente melhor do que a prática de exercícios em casa. Estudos futuros devem comparar programas supervisionados e não supervisionados claramente definidos e se concentrar em resultados relevantes para a assistência à saúde.

O resultado mais importante não é saber se um paciente consegue caminhar um pouco mais durante uma avaliação. É saber se ele apresenta menos complicações, se recupera mais rapidamente e se volta a realizar as atividades que são importantes para ele.

As evidências sugerem que vale a pena levar a sério a prática de exercícios antes da cirurgia. Os pacientes podem melhorar o condicionamento físico tanto com programas supervisionados quanto com programas realizados em casa.

Mas, quando o objetivo é alcançar intensidades mais elevadas de exercício, que podem reduzir as complicações pós-operatórias, a supervisão profissional pode ser importante, pois pode ajudar os pacientes a se exercitar com uma intensidade e uma regularidade difíceis de alcançar de forma segura e consistente por conta própria.

• Kari Clifford é pesquisadora sênior em Ciência Cirúrgica, Universidade de Otago, na Nova Zelândia

*Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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