Postulante a vaga no Oscar,

A partir de uma pequena cidade no sertão do Ceará, “Feito pipa” mostra o mundo visto pelo olhar de uma criança. E não há exagero algum em falar em “mundo” neste caso, porque no entorno do protagonista do filme de Allan Deberton aparecem que

Por Admin ·

Postulante a vaga no Oscar,

A partir de uma pequena cidade no sertão do Ceará, “Feito pipa” mostra o mundo visto pelo olhar de uma criança. E não há exagero algum em falar em “mundo” neste caso, porque no entorno do protagonista do filme de Allan Deberton aparecem questões universais, algumas dessas urgentes. Ele aborda, por exemplo, preconceito, velhice, paternidade, bullying, amizade, morte... Todos esses temas fazem sentido tanto em Quixadá, o município cearense onde foi filmado, quanto em Hollywood, onde “Feito pipa” tentará uma vaga ao Oscar de filme internacional depois de ser escolhido como o representante brasileiro na categoria.

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A criança de “Feito pipa” é Gugu, um garoto de 11 anos carismático e muito bem construído pelo jovem ator Yuri Gomes. Ele mora com a avó, Dilma (interpretada por Teca Pereira), uma idosa que tem aquela força tão característica de muitas mulheres brasileiras, acostumadas a dar conta de tudo, mas que começa a apresentar sinais de demência. Na rotina do menino, aparecem ainda o pai, Batista (vivido por Lázaro Ramos), e a nova família que ele vem construindo; os amigos da escola; os jogos de futebol; e o gosto por dançar e por usar maquiagem.

É a partir dessas interações de Gugu que “Feito pipa” se mostra um filme profundamente afetuoso, atento aos pequenos gestos do cotidiano de uma criança. O filme evita fazer da infância um universo idealizado: há conflitos, crueldades e frustrações, mas também uma liberdade que os adultos parecem ter perdido.

A relação com a avó é o centro emocional da história. É Dilma quem oferece ao neto um ambiente de acolhimento, enquanto a doença progride e começa a ameaçar a estabilidade desse pequeno universo. Há uma inversão gradual de papéis, na qual o menino precisa lidar com a fragilidade de quem sempre cuidou dele. O roteiro consegue extrair emoção dessa situação sem explorar excessivamente o sofrimento dos personagens. Mesmo nos momentos mais dramáticos, ele preserva sua leveza.

A ambientação no sertão cearense também contribui para a narrativa. As paisagens de Quixadá, com suas formações rochosas monumentais, contrastam com a intimidade dos conflitos familiares. E há algo interessante na escolha de contar uma história sobre liberdade e identidade num ambiente em que as convenções sociais exercem grande pressão sobre o comportamento dos indivíduos. É, afinal, um Brasil conservador que tem dificuldade de entender um menino que gosta de futebol e de se maquiar — um conflito expresso na figura do pai e potencializado pelo talento habitual de Lázaro Ramos.

Por fim, é importante destacar o trabalho de Teca Pereira. É ela quem dá a “Feito pipa” algumas de suas melhores cenas. Sua Dilma está longe de ser apenas uma avó carinhosa ou uma idosa fragilizada pela doença. É uma mulher de personalidade forte, divertida, cuja perda de autonomia se transforma em desafio para o neto. A atriz transita entre esses diferentes estados com impressionante naturalidade. Muito da força emocional de “Feito pipa” vem justamente de sua interpretação.