Com as ações acontece algo semelhante. Uma empresa pode anunciar lucro recorde e ver suas ações despencarem, enquanto outra, que ainda apresenta prejuízos, pode continuar se valorizando. Isso ocorre porque o valor de uma companhia depende não apenas dos resultados atuais, mas principalmente do dinheiro que poderá gerar no futuro e dos riscos envolvidos.
Embora existam diferentes métodos para avaliar empresas, quatro fatores financeiros ajudam a explicar seu valor: crescimento das receitas, margem operacional, necessidade de reinvestimento e custo de capital. Eles não atuam isoladamente. Uma melhora em um deles pode ser anulada pela deterioração de outro.
O primeiro fator é o crescimento das receitas. Mantidas as demais condições, quanto mais uma empresa consegue aumentar suas vendas, maior tende a ser seu valor e perspectiva de valorização. Afinal, receitas crescentes podem produzir lucros e fluxos de caixa maiores no futuro.
Entretanto, crescer nem sempre significa criar riqueza. Imagine uma empresa que invista R$ 100 milhões para expandir suas operações e passe a obter, de maneira sustentável, R$ 5 milhões adicionais de resultado operacional anual após impostos. Isso representa um retorno de 5% sobre o capital investido. Se o custo desse capital for de 12% ao ano, a expansão não estará remunerando adequadamente os recursos empregados. A companhia terá crescido, mas poderá ter destruído valor.
Portanto, o crescimento cria valor econômico quando o retorno sobre o capital adicional investido supera seu custo.
O segundo fator é a margem operacional. Quanto maior a parcela das receitas que se transforma em resultado operacional, maior tende a ser o valor da empresa, mantidas as demais condições.
Uma companhia que fatura R$ 1 bilhão e apresenta margem operacional de 25% gera R$ 250 milhões de resultado operacional. Outra, com a mesma receita e margem de 10%, gera apenas R$ 100 milhões.
Mas margens elevadas nem sempre são sustentáveis. Uma empresa pode aumentá-las temporariamente ao reduzir despesas com pesquisa, manutenção ou atendimento. Os resultados melhoram no presente, mas a competitividade e os lucros futuros podem ser prejudicados.
Também existem negócios cujas margens aumentam durante períodos excepcionalmente favoráveis, como ocorre em determinados ciclos de commodities. Se os investidores perceberem que essa rentabilidade é temporária, não atribuirão à empresa o mesmo valor que dariam a uma companhia capaz de sustentá-la por muitos anos.
O terceiro fator é a necessidade de reinvestimento. Esse talvez seja o menos compreendido pelos investidores.
Duas empresas podem apresentar resultados operacionais semelhantes e, ainda assim, gerar quantidades muito diferentes de dinheiro disponível aos investidores.
Imagine duas companhias que gerem R$ 200 milhões anuais de caixa operacional após impostos. A primeira precisa reinvestir R$ 150 milhões em equipamentos, estoques e expansão. A segunda necessita de apenas R$ 50 milhões.
Nesse exemplo, a primeira gera R$ 50 milhões de fluxo de caixa livre, enquanto a segunda produz R$ 150 milhões. Se ambas tiverem as mesmas perspectivas de crescimento e risco, e essa diferença de geração de caixa for sustentável, a segunda tende a valer mais.
Entretanto, reinvestir muito não é necessariamente ruim. Se a primeira empresa conseguir aplicar esses recursos em projetos com retornos elevados, poderá gerar mais caixa no futuro e justificar um valor superior.
O problema não está em investir muito, mas em investir sem obter uma remuneração adequada sobre o capital utilizado.
O quarto fator é o custo de capital, que reflete os riscos do negócio e a remuneração exigida por quem o financia. Quanto maior essa taxa, menor tende a ser o valor presente dos fluxos de caixa futuros.
Imagine que uma empresa vá gerar R$ 100 daqui a um ano. Se o retorno exigido for de 10%, esse dinheiro vale aproximadamente R$ 91 hoje. Se a taxa subir para 20%, seu valor presente cai para R$ 83.
Isso ajuda a explicar por que as ações podem perder valor mesmo quando as empresas continuam lucrativas. Uma elevação dos juros, por exemplo, pode aumentar o retorno exigido pelos investidores e reduzir o valor atribuído aos resultados futuros.
A relação entre custo de capital e valor é inversa quando os fluxos de caixa esperados permanecem iguais. Entretanto, na prática, os fatores podem mudar simultaneamente. Uma empresa pode se tornar menos arriscada, mas perder oportunidades de crescimento. Nesse caso, a redução do risco favorece seu valor, enquanto a piora das perspectivas de resultados atua na direção contrária.
Os quatro fatores também ajudam a compreender por que uma empresa pode divulgar lucro recorde e suas ações caírem. O mercado não avalia apenas o que aconteceu, mas principalmente o que espera que aconteça. Se os resultados vierem abaixo das expectativas, ou se as perspectivas de crescimento, margens, reinvestimento e risco piorarem, o valor estimado da companhia poderá diminuir.
Na Bolsa, não basta encontrar empresas que crescem, lucram ou parecem seguras. O desafio é descobrir quanto dinheiro conseguirão gerar para seus acionistas, quanto precisarão investir para isso e quais riscos estarão envolvidos. Afinal, uma empresa pode apresentar resultados excelentes e, ainda assim, criar pouco valor.
Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor .
Por que uma empresa que cresce mais pode valer menos?
Imagine dois imóveis na mesma rua. Um rende R$ 5.000 de aluguel por mês; o outro, R$ 3.000. Qual deveria valer mais? A resposta parece evidente. Mas e se o primeiro exigir reformas frequentes, apresentar maior risco de desocupação e tiver perspectivas piores d