À medida que Israel vai às urnas nesta terça (27) , uma mudança semelhante é, de longe, o melhor resultado que se pode razoavelmente esperar, com o governo extremista do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu sendo substituído por uma administração decente e respeitadora das leis. Uma política externa radicalmente nova continuará fora de alcance.
Em uma democracia "normal", um líder como Netanyahu teria sido forçado a renunciar ou derrubado por protestos populares há muito tempo.
Afinal, foi sob sua gestão que Israel sofreu o terrível ataque terrorista de 7 de outubro de 2023 , e foi sob suas ordens que o país empreendeu várias guerras prolongadas — marcadas por crimes de guerra —, que esgotaram suas capacidades e o afastaram da comunidade internacional .
Mas Israel não é uma democracia normal, e seus eleitores nunca se preocuparam particularmente com a responsabilização dos governantes. Embora Netanyahu não conte com amplo apoio —as pesquisas praticamente descartam a possibilidade de seu bloco manter a maioria—, sua derrota está longe de ser garantida.
Isso pouco tem a ver com políticas públicas: embora os liberais às vezes apresentem programas e propostas, as eleições israelenses sempre giraram menos em torno de plataformas políticas do que de cultura e identidade tribal.
Netanyahu tem grande parcela de responsabilidade por isso. Durante décadas, conquistou apoio colocando em confronto duas concepções concorrentes de identidade —a israelense e a judaica.
Ele explorou os medos das pessoas, relembrando episódios de hostilidade árabe e as intifadas palestinas, ao mesmo tempo que promovia a ideia de que não existe um caminho pacífico para garantir a segurança de Israel. Até mesmo o Ocidente, afirma ele, é fundamentalmente antissemita: no fim, sempre colocará os judeus no banco dos réus.
Netanyahu encarna a paranoia coletiva de uma nação que vive negando as próprias transgressões e que vê horrores do passado, do Holocausto ao terror do Hamas , como justificativa para qualquer ação capaz de manter os israelenses "seguros". Não é coincidência que o nacionalismo religioso tenha avançado nos últimos anos, inclusive nos escalões superiores das Forças de Defesa de Israel.
Mas o foco de Netanyahu nunca está em um futuro seguro, e sim na catástrofe que supostamente está sempre prestes a acontecer. Para muitos, o massacre de 7 de Outubro e a condenação "hipócrita" do mundo à subsequente guerra de "autodefesa " de Israel pareceram confirmar a narrativa de Netanyahu.
Ainda assim, anos de guerra, corrupção política e erosão democrática sob a liderança de Bibi afastaram alguns segmentos do eleitorado israelense. Esses eleitores, porém, não foram incorporados por uma oposição coesa. Em vez disso, encontraram um amálgama de partidos de direita, grupos de centro-direita e centro-esquerda e apenas um partido claramente de esquerda, os Democratas de Yair Golan .
Os partidos de oposição estão unidos por alguns objetivos. Querem responsabilizar Netanyahu pelas falhas de segurança que possibilitaram o ataque de 7 de outubro e pela condução da guerra em Gaza . Querem interromper suas reformas judiciais antidemocráticas.