Por que jovens tentam passar mais tempo longe das telas

Às vezes, Giovana Ventura pega o celular porque precisa conferir um dado do trabalho. A jornalista de 29 anos atua com redes sociais e, portanto, precisa acompanhá-las também por razões profissionais. O problema começa quando, no caminho at

Por Admin ·

Por que jovens tentam passar mais tempo longe das telas

Giovana começou a notar que lia menos livros , via menos filmes e deixava tarefas domésticas para depois. Também passou a se incomodar ao sair com amigos e perceber todos olhando para os próprios aparelhos. Por isso, começou a retirar notificações, silenciar grupos, deixar o celular na bolsa e combinar períodos sem telefone com pessoas próximas.

Mas ela está longe de abandonar a internet : a tentativa é reduzir o uso e recuperar algum controle sobre uma ferramenta necessária para o trabalho, a comunicação, o acesso às notícias e boa parte da vida cotidiana. Essa distinção é importante também do ponto de vista médico. "O detox digital não é um conceito clínico, não é um diagnóstico ou um termo médico específico", afirma o psiquiatra Gabriel Okuda, do Einstein Hospital Israelita.

O uso problemático de smartphones, redes sociais ou da internet em geral não aparece como um transtorno mental no DSM-5-TR, manual da Associação Americana de Psiquiatria, nem na CID-11, classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS). Por isso, simplesmente contar quantas horas alguém passa diante da tela não é suficiente para definir um problema.

Contexto e função também importam. Uma pessoa pode precisar do telefone durante grande parte do dia para trabalhar, enquanto, em outro caso, um tempo menor de uso pode estar acompanhado de perda de controle e prejuízos importantes. "O tempo de uso da tela é muito importante, mas ele não conta tudo", diz Okuda. Entre os sinais que merecem atenção estão a dificuldade persistente de reduzir o uso, o ato de checar o aparelho de modo automático ou compulsivo, o abandono de atividades importantes, o prejuízo ao sono, ao trabalho ou aos estudos e a continuidade do comportamento mesmo diante de consequências negativas.

A dificuldade de Giovana não é necessariamente representativa de uma geração, mas evidências mostram que o conflito com o próprio tempo online existe entre adolescentes brasileiros: na pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024 , do Cetic.br/NIC.br, 25% dos usuários de internet de 15 a 17 anos afirmaram que, nos 12 meses anteriores, tentaram passar menos tempo online, mas não conseguiram.

A ideia de se afastar voluntariamente de meios de comunicação tampouco nasceu com TikTok, Instagram ou smartphones. Práticas de recusa, limitação e afastamento têm precedentes históricos. O que mudou foi a natureza da conexão: para quem viveu a internet dos computadores de mesa, desligar o equipamento representava, de maneira bastante concreta, ficar offline. Com smartphones, internet móvel e serviços digitalizados, a fronteira praticamente desapareceu. Trabalho, banco, transporte, comunicação familiar e acesso a serviços passam pelo mesmo aparelho que concentra entretenimento e redes sociais.

Essa condição também torna a possibilidade de se desconectar desigual. "Se desconectar também virou um marcador social. Quem é que tem direito a se desconectar hoje em dia?", questiona o pesquisador Thiago Alvares da Trindade, doutor em Comunicação pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, e autor de uma tese sobre detox digital. Para ele, a ocupação profissional, a renda e a organização da vida cotidiana interferem diretamente nessa possibilidade. Uma pessoa pode pagar por um retiro sem celular; outra depende do aparelho para receber trabalho ou renda. Uma família pode querer estabelecer períodos sem WhatsApp, enquanto outra depende do aplicativo para receber informações da escola dos filhos.

Uma das formas de experimentar essa desconexão são os encontros presenciais sem celular. Em São Paulo, a psicanalista e escritora Ana Costa criou o Movimento Vida Offline, que organiza atividades sem uso de telas. Uma iniciativa semelhante na Holanda, o The Offline Club, foi analisada pelos pesquisadores Zuzana Ľudviková, da Universidade de Amsterdã, e Rashid Gabdulhakov. "A maioria dos usuários aborda o detox digital individualmente, de forma seletiva e por tempo limitado", observa Ľudviková. A pesquisa mostra os limites dessas experiências e não permite afirmar que os encontros produzem mudanças duradouras de hábitos.