São em sua maioria homens com mais de 40 anos, sem ensino superior, focados basicamente em trabalhar. É a tal experiência "dekassegui". Um termo em japonês que significa literalmente "trabalhar longe de casa". Mas, no contexto brasileiro, virou sinônimo de descendentes de japoneses que migraram para o Japão para trabalhar em fábricas. Muitas vezes, com o sonho de juntar dinheiro , voltar para o Brasil e virar patrão.
"Viemos pra ficar três anos, mas já estamos aqui há 10", afirma um brasileiro no Japão em vídeo no TikTok . É uma vida meio isolada, marcada por longas e extenuantes jornadas de trabalho —pagas por hora e negociadas com o patrão de verdade. "Você acorda, trabalha, faz a mesma coisa por 8, 10, 12 horas. Aí volta pra casa, come, toma banho e dorme. E no dia seguinte, tudo de novo", diz outro brasileiro no Japão em vídeo no TikTok. O que nos leva a outro ponto importante: a busca por pertencimento. A gente está falando de uma população que se sente meio sem território. No Brasil, são chamados de "japoneses". No Japão, são considerados "gaijins" (ou estrangeiros). "Então, no final das contas, eu sou um vira-lata que não tem nacionalidade nenhuma", conta um terceiro brasileiro no Japão em post no TikTok. Com esse pano de fundo, igrejas evangélicas neopentecostais foram ganhando cada vez mais importância dos anos 90 para cá. Elas reforçam valores religiosos e conservadores frequentemente associados ao bolsonarismo. E acabam cumprindo também esse papel de acolhimento e formação de comunidade. Afinal, muitos desses imigrantes, e até os filhos deles, não têm direito a votar no Japão. E veem na eleição brasileira uma forma de ter voz na política – e de se sentir brasileiros também. Tanto que Flávio Bolsonaro teve mais de 70% dos votos no primeiro turno.
"Se você quiser prosperar e tiver Deus no centro desse país, eu vou votar sempre no 22, que vai ser a liberdade", afirma um nipo-brasileiro no TikTok. Num país que abriga hoje quase 90 mil eleitores —o que representa, proporcionalmente, a maior comunidade brasileira que vota no exterior. Mas fica aqui uma ressalva: tudo isso ajuda a explicar a inclinação dessa comunidade à direita. Mas não significa que todo descendente de japonês é de direita. "Você sabia que um dos fundadores do PT foi um homem amarelo?", diz um vídeo no Instagram. Esse pensamento, segundo os especialistas com quem a DW conversou, seria prato cheio para alimentar generalizações e preconceito contra nipo-brasileiros.