Segundo o jornal francês Le Monde, Kevin T., que não teve o sobrenome divulgado pelas autoridades, se gabou ao ser preso por policiais de ter alvejado "negros e árabes" no rompante que protagonizou nas cidades de Trappes e La Verrière, a sudoeste da capital francesa.
A bordo de um Renault Clio e portando uma submetralhadora e granadas de efeito moral, o suspeito percorreu o trajeto entre as duas cidades visando a pessoas que aparentavam ser imigrantes. O homem morto, de 26 anos, era de origem africana, e um dos feridos era magrebino. O atirador também deu oito tiros em uma menina de 12 anos.
A perseguição ao suspeito durou cerca de 20 minutos. Laurent Nuñez, ministro do Interior, parabenizou os agentes pela intervenção, que interrompeu uma "trajetória mortal".
As alegações de cunho racista no momento da prisão fizeram a Promotoria francesa especializada em terrorismo , conhecida pela sigla PNAT, a abrir investigação por "homicídios e tentativas de homicídio relacionados a uma atividade terrorista e com a circunstância de que os fatos foram cometidos em razão de pertencimento suposto ou real de pretensa raça, etnia, nação ou religião".
Em visita a Trappes, na noite de sexta-feira, Emmanuel Macron declarou que o ataque tinha sido um "ponto de inflexão" no país. " É a primeira vez que ocorre um ato terrorista planejado para matar nossos compatriotas, nossos filhos, devido à cor de sua pele ou da religião que lhes é atribuída", disse o presidente. "Isso não tem lugar na República, não tem lugar na França ."
Um esquadrão antibombas teve que ser acionado pelos agentes que chegaram ao apartamento do suspeito em Plaisir, na região do ataque, logo após ele ser preso. Havia uma armadilha no local preparada com três botijões de gás e um temporizador.
O fato de o livro do ditador nazista ter sido encontrado na residência reforça a hipótese de motivação racista. Em "Mein Kampf", de 1925, Hitler destila suas ideias antissemitas, anticomunistas, racialistas e nacionalistas que fundamentaram a atuação do Partido Nazista na Alemanha .
Os investigadores procuram agora indícios de envolvimento do suspeito com movimentos de extrema direita. Desde o ataque terrorista do Hamas e subsequente guerra de Israel em Gaza, em 2023, a França vive um surto de episódios de antissemitismo e islamofobia.
Pessoas próximas e até a mãe do atirador estão sendo interrogadas pela polícia, apesar de o suspeito não ter históricos de extremismo —ele tem quatro condenações por crimes comuns.
Neste sábado (24), protestos em Orléans acusaram Marine Le Pen de ter incitado o ato com seu discurso anti-imigração. A cidade recebia o Congresso da Reunião Nacional, seu partido de ultradireita, que lidera as pesquisas de intenção de voto.
Além da divisiva campanha presidencial em curso, uma onda de manifestações de estudantes, depois encorpada por movimentos sociais, ganhou as ruas em diversas cidades do país, com saldo de violência e prejuízos. Também neste sábado), centenas de milhares voltaram a protestar , desta vez sob aparato de segurança reforçado.
Macron, em fim de mandato e impopular, alertou para os sinais deixados pelo atentado, pedindo união e compreensão aos franceses.