A depreciação da taxa de câmbio , a incerteza fiscal , o estresse gerado nos juros futuros e a alta do petróleo estão entre os fatores que tornaram o cenário mais desafiador para o controle da inflação nos próximos anos e abalaram as apostas do mercado financeiro.
A reviravolta pós-eleitoral levou uma parcela significativa dos agentes econômicos a abandonar a aposta de novo corte de 0,25 ponto percentual na Selic –o sexto consecutivo– e a defender uma pausa na flexibilização dos juros frente à turbulência doméstica.
O ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola, sócio da Tendências Consultoria, se disse mais inclinado à manutenção dos juros e a uma atitude mais cautelosa do Copom depois da volatilidade gerada pelas eleições, embora não descarte totalmente a possibilidade de queda de 0,25 ponto percentual, para 13,5% ao ano.
Ele afirma que o BC tem poucos instrumentos para agir diante de variáveis que estão fora de seu alcance. Uma dessas variáveis é o cenário internacional menos favorável, em meio ao conflito no Oriente Médio.
Outro fator é a questão fiscal, com medidas expansionistas do governo que anulam o esforço da autoridade monetária para frear a demanda agregada.
"É uma situação muito ruim, porque o Banco Central gasta munição, afeta a economia como um todo e leva a um aumento da inadimplência muito grande das famílias e das empresas em vão", diz. "É como se estivesse dando um remédio que só tivesse efeito colateral, porque o paciente está tomando outro medicamento que anula os efeitos pretendidos."
Loyola diz que o cenário só vai melhorar quando o governo Lula emitir sinais que levem os economistas a acreditarem na possibilidade de ajuste fiscal nos próximos meses. "O Banco Central não tem muito o que fazer a não ser advertir, lembrar ao governo que é preciso endereçar uma solução estrutural para o crescimento da dívida pública ."
Como a Folha mostrou, a expectativa de interrupção no ciclo de cortes também ocorre em meio à ofensiva de integrantes do governo e do PT contra a reação dos mercados financeiros à reeleição de Lula.
Após a desvalorização dos ativos na semana passada, aliados do presidente passaram a classificar como especulativa a pressão por ajuste fiscal e a defender que eventuais cortes de gastos preservem programas sociais.
A expectativa de Sérgio Werlang, ex-diretor do BC e professor de economia da Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas, é que o Copom interrompa o ciclo de queda de juros para "ver o que vai acontecer".
A ideia seria ganhar tempo para observar se as mudanças no patamar do câmbio e das expectativas de inflação são permanentes ou transitórias. Essa resposta, segundo ele, não virá sem definição da política fiscal do próximo mandato de Lula.
"Se por acaso se confirmar que Lula 4 será igual a Lula 3, e acho que há uma probabilidade não baixa [de isso acontecer], o câmbio pode ir para muito mais de R$ 5,40", afirma. "Se o câmbio subir muito mais, ele [BC] pode ser forçado a dizer que vai subir o juro", acrescenta.
O dólar fechou a sexta-feira (30) cotado a R$ 5,447 . Foi a maior alta semanal em 18 anos , desde a crise hipotecária nos Estados Unidos , com avanço de 9,18%.
"Eu morro de medo de nós, com isso, chegarmos na dominância fiscal. [...] A gente não sabe exatamente qual é o número, mas sabe que está se aproximando. Se o governo Lula fizer uma política fiscal igual à da [gestão] Lula 3, vai atingir esse valor de dominância fiscal logo, num futuro não muito distante", alerta.
O termo dominância fiscal é usado para expressar uma situação na qual a autoridade monetária perde o controle sobre a trajetória da inflação em razão de uma forte expansão dos gastos públicos.
"Nesse caso, é irrelevante o Banco Central aumentar o juro porque não vai ter efeito nenhum e nós vamos ter só mais inflação", diz Werlang.
Para Fernanda Guardado, ex-diretora do BC e economista-chefe para América Latina do BNP Paribas, o Copom não deve ignorar a deterioração do cenário inflacionário e adotará uma postura mais cautelosa, buscando preservar a credibilidade da política de juros.
Ela estima que a inflação projetada para 2027 no boletim Focus deve ultrapassar 5% –acima do teto da meta (4,5%)–, repercutindo nos anos seguintes. O BC tomará sua decisão com o segundo trimestre de 2028 na mira, devido aos efeitos defasados da política de juros sobre a economia.
A ex-diretora do BC considera que a questão dos combustíveis é um risco para a inflação que vai se materializar em 2027, na medida em que os preços sejam reajustados e os subsídios, estendidos parcialmente diante do alto custo para o governo. Ela também cita os efeitos decorrentes do fim da escala 6x1 e da reforma tributária, com a alíquota de 11,3% para a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), acima do projetado para 2027.
Na visão dela, o Copom deveria pausar o ciclo de cortes para observar como os riscos vão se materializar nos próximos meses.
"Como cortar juros com um cenário que está piorando? O Banco Central arrisca ter um vetor extra de deterioração, que é as pessoas acreditarem menos na determinação dele em trazer a inflação para baixo", afirma.
Para Guardado, os juros deveriam ficar estacionados até março do próximo ano, quando o BC já terá mais informações sobre o impacto do fenômeno climático El Niño nos preços dos alimentos, a desaceleração da economia, os planos do governo para consolidação fiscal e a trajetória das expectativas de inflação.
"O Banco Central terá uma ideia melhor se o nível da taxa de juros vai ser suficiente ou não para trazer a inflação para a meta no horizonte relevante. Hoje, um nível de Selic mais baixo não vai ser compatível com um Banco Central que quer trazer a inflação para a meta de 3% ainda em meados de 2028", diz.