Documento de 700 páginas foi enviado ao STF (Supremo Tribunal Federal)
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Brasília A Polícia Federal concluiu o primeiro inquérito sobre suspeitas relacionadas ao Banco Master e indiciou Daniel Vorcaro e outras 14 pessoas por suspeitas de crimes financeiros na venda de carteiras de crédito ao BRB (Banco de Brasília).
Entre os indiciados estão Paulo Henrique Costa (ex-presidente do BRB) e Augusto Lima (ex-sócio de Vorcaro).
A Vorcaro são atribuídas suspeitas dos crimes de gestão fraudulenta, de fraude à fiscalização, de lavagem de dinheiro, de indução ou manutenção em erro sobre operação financeira e de participar de organização criminosa.
Paulo Henrique foi indiciado por suspeita de gestão fraudulenta e organização criminosa. A Augusto Lima são imputados os mesmos dois crimes, além de lavagem de dinheiro.
Em nota, a defesa de Vorcaro diz que o relatório de indiciamento foi "açodado e afoito", e que "antecipa conclusões que a própria investigação admite ainda não ter alcançado".
A defesa reitera argumentos já apresentados pelo ex-banqueiro. Os advogados dizem que as carteiras da Tirreno "foram substituídas por outros ativos, e a troca realizada demonstra que os negócios entre o Banco Master e o BRB geraram resultados positivos para o Banco de Brasília".
"Indiciamento frágil e absurdo: as conclusões se apoiam em leitura seletiva de mensagens e em hipóteses formuladas 'em tese', e não em demonstração técnica", dizem os advogados.
"São operações embasadas em decisões técnicas e colegiadas das instâncias de governança de duas instituições supervisionadas pelo Banco Central. Agora são retratadas como crime sem que se tenha aferido seu resultado econômico."
O advogado de Paulo Henrique, Davi Tangerino, diz que "o trabalho policial submeteu os fatos às hipóteses acusatórias, quando deveria fazer o inverso".
"As conversas em aplicativos de mensageria nos celulares dos integrantes do ambiente Master mostram às escâncaras que Paulo Henrique não tinha conhecimento das fraudes nas carteiras. As testemunhas, sejam as ligadas ao BRB, sejam ao Master, são convergentes nesse tema. Também foram ignorados todos os documentos carreados aos autos, inclusive por autoridades públicas, como o Banco Central", diz a defesa.
Ele afirma que o ex-presidente do BRB detectou irregularidades nas carteiras e que exigiu R$ 25 bilhões de garantias. Também afirma que não se aponta nenhuma vantagem financeira a seu cliente no relatório.
Procurada, a defesa de Augusto Lima ainda não se manifestou.
O documento da PF tem mais de 700 páginas e foi entregue ao STF (Supremo Tribunal Federal).
Nele, a PF diz que, "sob perspectiva jurídico-penal, os elementos são compatíveis, em tese, com participação em atos de gestão fraudulenta do BRB, na medida em que as sucessivas aprovações contribuíram para manter e ampliar operações bilionárias mediante postergação, flexibilização ou esvaziamento dos controles internos".
A conclusão do órgão, diz o texto assinado por quatro delegados, "considera individualmente o conteúdo entregue antes de cada votação, o tempo disponível para análise, as atribuições funcionais de cada diretor, as manifestações eventualmente produzidas fora das atas e o grau de consciência sobre a insuficiência dos ativos."
A PF afirma que entre julho de 2024 e outubro de 2025 o Master cedeu ao BRB ativos de crédito de aproximadamente R$ 17,5 bilhões e que, desse total, "ao menos R$ 12,2 bilhões correspondem a créditos comercializados sem a devida comprovação da sua existência".
As carteiras haviam sido adquiridas pelo Master da consultoria Tirreno e teriam origem em operações de empréstimo consignado firmadas por meio de associações de servidores públicos da Bahia .
Desde o ano passado, investigações do Banco Central , do MPF (Ministério Público Federal) e da PF têm apontado suspeitas de que os créditos haviam sido forjados e foram utilizados para inflar o balanço do banco de Vorcaro, que repassou a carteira ao BRB num momento em que a instituição enfrentava dificuldades de liquidez.
Segundo o relatório, créditos fictícios foram montados em planilhas de Excel, transformados em CCBs (cédulas de crédito bancário) e registrados na bolsa de valores.
A perícia aponta que a Tirreno é oriunda de uma empresa de prateleira e não tinha estrutura, empregados nem patrimônio.
No BRB, a PF diz que as compras foram aprovadas em parcelas de R$ 750 milhões e ficavam sob responsabilidade da diretoria colegiada.
A PF atribui a Vorcaro o papel de líder da organização criminosa, suspeito de decidir sobre a produção e a cessão das carteiras e de ser o principal beneficiário.
Paulo Henrique Costa tinha o papel de, segundo a polícia, garantir que as operações estruturadas por Vorcaro fossem executadas pelo banco público. Já Augusto tinha vínculo com as associações de servidores da Bahia e supervisionou o envio das CCBs e dos contratos atribuídos à Tirreno.
A Polícia Federal pede ainda que o inquérito seja prorrogado por mais 60 dias, com o objetivo de concluir exames periciais e outras análises complementares.
"A apuração abrange acentuada quantidade de contratos celebrados, cédulas de créditos bancário emitidas, múltiplos agentes e sucessivas operações financeiras, societárias e negociais, além de volumoso conjunto de documentos, dados bancários, registros contábeis e elementos telemáticos", dizem os delegados.
Eles argumentam que "a adequada compreensão desse acervo demanda exame técnico especializado e análise integrada das diversas fontes probatórias".
18.nov.2025 Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do Master e mais quatro empresas do grupo, entre elas o Letsbank, por crise de liquidez e violação de normas financeiras. Daniel Vorcaro é preso.
29.nov.2025 Daniel Vorcaro deixa o Centro de Detenção Provisória 2, em Guarulhos (SP), onde estava preso. O banqueiro obtém habeas corpus no dia anterior (28) e é solto com uso de tornozeleira eletrônica.
1º.dez.2025 Caso chega ao STF sob relatoria de Dias Toffoli, que impõe sigilo. Logo depois, é revelado que o ministro viajou em jatinho privado para o Peru na companhia de advogado que defende Luiz Antônio Bull, executivo do Master alvo da Operação Compliance Zero.
15.jan.2026 O BC liquida a Reag/CBSF por suspeita de ser o braço operacional das fraudes do grupo.
21.jan.2026 O Will Bank (comprado pelo Master em 2024) é liquidado após insolvência e interrupção de pagamentos à Mastercard, afetando clientes com cartões bloqueados.
1º.fev.2026 A holding financeira Fictor, que anunciara sem sucesso a compra do Banco Master um dia antes de sua liquidação, protocola pedido de recuperação judicial, com dívida de R$ 4,2 bilhões.
12.fev.2026 Ministro Dias Toffoli deixa a relatoria do caso que investiga supostas irregularidades no Banco Master. Ele passou a sofrer pressão para se afastar após serem reveladas conexões com o banco de Daniel Vorcaro.
18.fev.2026 O BC decreta a liquidação do Banco Pleno (ex-Voiter), que já pertenceu ao conglomerado do Master, diante de dificuldades de liquidez da instituição financeira.
4.mar.2026 Novo relator do caso, o ministro André Mendonça, do STF, decreta nova prisão de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
16.abr.2026 Polícia Federal prende o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa em nova fase da Operação Compliance Zero.
14.mai.2026 Polícia Federal prende Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, e três hackers.
25.jun.2026 Ministro André Mendonça determina a transferência de Daniel Vorcaro da superintendência da Polícia Federal para a unidade prisional conhecida como Papudinha.
1º.set.2026 Mensagens recuperadas do celular do banqueiro indicam que ele perguntou ao ministro Alexandre de Moraes, dois dias antes de ser preso, se deveria deixar o país.
14.set.2026 BRB afasta cinco empregados, incluindo dois ex-diretores, como resultado de investigações relacionadas ao Banco Master.
15.set.2025 Ministro Flavio Dino pede vista e adia decisão do STF sobre investigação de Alexandre de Moraes.
28.out.2026 Polícia Federal conclui o primeiro inquérito e indicia Daniel Vorcaro e outras 14 pessoas por suspeitas de crimes financeiros na venda de carteiras de crédito ao BRB