"Depois de ter visto esses posts do final de semana da eleição , decidiu cancelar dizendo que não me admirava mais", conta a dermatologista Paula Casteleti. Ela está falando de uma paciente que cancelou uma consulta após ver um post dela sobre política nas redes sociais . Tem um monte de relatos assim. Profissionais perdendo seguidor e cliente por causa de política. "Talvez se essa paciente me conhecesse, se a gente tivesse tido a oportunidade de ter tido uma conversa. Talvez ela mudasse de opinião sobre mim. Só que a gente não teve essa oportunidade. E é essa intolerância que a gente está vendo", continua Casteleti.
Esse caso toca num dilema. O mundo de hoje pressiona médicos e outros profissionais a buscar relevância nas redes sociais. Um modelo de negócio em que a própria pessoa virou parte do serviço ou produto. E, nas redes, muita gente espera acompanhar não só o trabalho desses profissionais. Mas também a rotina, os relacionamentos e, muitas vezes, as opiniões deles. Ou seja, tem uma mistura da vida pessoal e profissional. E um consumo que acaba sendo guiado por afinidade ideológica. "Porque antes, se eu contratava alguém para arrumar, por exemplo, a hidráulica do meu apartamento, a pessoa ia ali fazer o conserto, trocava meia dúzia de palavras. Discutia, pagava e tchau. Agora, hoje, por exemplo, se a pessoa posta um stories no WhatsApp, eu vou estar vendo o que ela está fazendo. Eu vou pensar assim: 'Nossa, será que eu quero isso? Será que eu quero me deparar com isso?' Eu me acho no direito: 'Ah, eu vou boicotar, eu vou bloquear, eu vou deletar, vou parar de seguir'", afirma Adriana Amaral, professora de Estudos de Mídia e Comunicação da UFF e pesquisadora.
E muitas vezes acaba sendo mais confortável restringir nossas interações ao universo online. "Muitas pessoas têm dificuldade de sair para ter uma conversa cara a cara hoje em dia. Parar, sentar, escutar, ter conversas offline olho no olho. A gente tem que, como humanos, saber lidar com esse desconforto, porque a vida é desconfortável", diz a psicóloga e pesquisadora Juliana Taha. "Não tem espaço para relacionamento, para relação, para conversa, para interação, para abrir a cabeça, para ouvir diferentes pontos de vista", afirma a médica Casteleti.