Até esta semana lembrado como um paraíso para investidores pela baixa carga tributária e pela segurança econômica, o Paraguai mergulhou em uma crise política após o colapso do Ueno Bank afetar cerca de 3 milhões de clientes —quase metade do país.
A investigação da fraude milionária respingou em Peña , ex-investidor da holding do banco e responsável por, em 2023, nomear Carlos Carvallo Spalding, então presidente-executivo da companhia, para a presidência do Banco Central do Paraguai.
Candidato à Presidência em 2013, 2018 e 2023 —e, em todas as oportunidades, derrotado pelo Partido Colorado, de Peña— Efraín afirma que a atual crise é, na verdade, uma crise no sistema político paraguaio, que ele acusa de ser sustentado "com muita força e dinheiro do crime organizado, além da verba pública".
Em 2023, o ex-presidente colorado Horacio Cartes e correligionários foram alvos de sanções dos Estados Unidos por acusações de corrupção. A sigla está no poder há oito décadas, com apenas uma interrupção de cinco anos nos quais o esquerdista Fernando Lugo governou.
"Os afetados por essas sanções têm o direito, e devem ter também a obrigação, em alguns casos, quando se trata de figuras públicas e políticas, de se defenderem", afirmou Peña ao ser questionado pelo El País sobre as punições enquanto concorria à Presidência, em 2023.
O que o colapso do Ueno Bank significa para a política paraguaia? Em primeiro lugar, nós esperávamos o julgamento político e a destituição. Peña renunciou para tentar manter seus foros. É apenas uma estratégia dele, que não quer ser preso nem devolver o que roubou.
Isso não resolve os problemas. Essa era uma entidade que, quando Peña assumiu, era uma financeira. Em quatro meses de governo, ela se transformou em um banco e começou a captar recursos públicos —os regulamentos das instituições foram modificados para permitir que um banco com pouca trajetória financeira pudesse captar recursos do Estado.
Nada disso poderia ter acontecido sem a cumplicidade do poder. Há responsabilidade não apenas de Peña, mas de Alliana, vice-presidente, e também do Banco Central do Paraguai, da Superintendência de Bancos, do Instituto de Previdência Social. Todos eles devem ser processados. E o importante é recuperar o dinheiro roubado das pessoas e das instituições.
Três milhões de paraguaios e paraguaias foram afetados por essa instituição financeira. Entre esses compatriotas, estão as pessoas mais vulneráveis, o cidadão e a cidadã trabalhadora. São pessoas humildes, porque esse banco apresentou uma plataforma que tornou a bancarização acessível a qualquer cidadão. Milhões de paraguaios confiaram e hoje estão sofrendo, ficaram sem suas poucas economias. É uma verdadeira tragédia social.
Nos últimos anos, o Paraguai se consolidou como um bom destino para investidores. Muitas pessoas até se mudaram para lá, inclusive muitos brasileiros. Essa crise é algo circunstancial ou abala a confiança no país? O que está acontecendo prejudica muito nossa imagem como país e como destino de investimentos. A macroeconomia está estável, a inflação histórica, dos últimos 20, 30 anos, não ultrapassou um dígito, o endividamento está controlado. É um país com uma pressão tributária muito baixa.
É claro que seria injusto deixar de dizer que isso representa apenas uma parte do Paraguai. Há outra parte que vive na pobreza, que enfrenta necessidades. Mas, naturalmente, essa não é a preocupação daqueles que vêm investir. Os investidores querem inflação baixa, estabilidade, previsibilidade e segurança. E acredito que o que está acontecendo hoje nos atinge sobretudo em matéria de credibilidade e previsibilidade institucional.
Se as instituições que devem salvaguardar o bom funcionamento financeiro de um país são cúmplices de um roubo de US$ 3 bilhões, então isso coloca em dúvida todo o resto que pode acontecer no âmbito das finanças de um país como o nosso.