E agora, dez dias depois, a vitória dos democratas nos EUA fecha um ciclo político virtuoso, numa mensagem inequívoca de rejeição à guerra —e seu impacto no custo de vida—, à violência, à arrogância e ao desrespeito.
A extrema direita se utiliza da democracia para corroê-la, o que é uma traição à sociedade. A mensagem das duas mais importantes eleições do ano para o mundo não deixa dúvidas quanto à rejeição a seus princípios.
No Brasil vivenciamos uma revolução pacífica, com todos os seus componentes: a espetacular mobilização da população contagiou a maioria das pessoas em defesa da democracia, frente ao risco de uma proposta autoritária. A seriedade, o engajamento e a alegria dos jovens contagiaram a todos e são um seguro para o regime democrático no longo prazo. Aqueles que estiveram nas ruas irão defendê-lo por décadas e isso é um resultado intangível para o país.
Nem o mais otimista dos eleitores imaginaria que as eleições brasileiras ultrapassariam nossas fronteiras da forma como aconteceu. Em meio a manifestações no mundo inteiro, nos tornamos símbolo da defesa da democracia e exemplo da esperança na vitória. Não há nada mais importante para um país do que ser reconhecido por sua capacidade de decidir coletivamente, independentemente das lideranças, por ideias que traduzem o que de melhor produzimos como humanos: a solidariedade, o respeito, a não violência, a preocupação com o outro.
O Brasil já era admirado por sua diversidade cultural e, agora, é reconhecido por sua capacidade de mobilização e decisão política, nobres temas capazes de impactar a vida de todos nós.
Nos EUA, o movimento contra um líder desrespeitoso, violento e insensível traz consigo a esperança de mudanças que impactam a vida no mundo todo. O instinto de sobrevivência do Partido Republicano fará com que muitos deputados e senadores se afastem de Trump, caso contrário, as eleições presidenciais de 2030 estarão comprometidas. Tempos interessantes estão por vir, que podem reduzir as tensões diárias que nos acostumamos a vivenciar nesses dois anos de Trump no poder.
O resultado das eleições tem impacto direto em nossas vidas. Nos Estados Unidos, leva a uma expectativa de redução da violência. A guerra provoca o aumento de custos que influencia o preço dos alimentos; a perda da confiança nas relações entre países conduz ao aumento dos investimentos na defesa e em armas, reduzindo investimentos sociais e de infraestrutura; e medidas unilaterais como taxações de produtos impactam a vida e a mesa de todos. É de se esperar mudanças nessas atitudes.
No Brasil, o salário mínimo, que 4 em cada 10 brasileiros recebem, permanecerá com aumento real; o SUS seguirá sendo a garantia de atendimento para 7 em cada 10 brasileiros; o acesso à educação pública de qualidade para 80% da população seguirá prioritário; o fortalecimento de políticas ambientais, que têm relação com enchentes, secas e ilhas de calor, não será objeto de negacionismo; no tema do transporte, que consome 20% do recurso das famílias mais pobres, a ideia da gratuidade seguirá viva; e a melhoria da segurança com a integração dos agentes das diferentes esferas passará a ser uma possibilidade real.
O resultado das eleições significa uma alteração imediata nas relações no Brasil e no mundo? Não, mas aponta para um caminho que se vincula à possibilidade de sonhar com dias melhores. E isso não é pouca coisa.
Nessa história recente, nesses últimos dez dias, seguimos processando o que ocorreu, ainda sem a devida distância para sentir sua magnitude. É certo que ganhamos muitas coisas. Mas, sobretudo, ganhamos vida, em sua mais alta acepção.