Nas últimas duas décadas, afinal, Netanyahu se tornou um dos principais símbolos do que os palestinos enfrentam. Em especial, representou o avanço dos assentamentos na Cisjordânia , a violência dos colonos e os bombardeios na Faixa de Gaza .
É uma boa notícia —mas não chega a ser excelente. Não há ilusões de que, uma vez embaralhadas as cartas, os palestinos possam receber uma boa mão em um futuro próximo. Não terão um Estado.
Eisenkot, de fato, propõe uma série de mudanças na política israelense que podem beneficiar os palestinos ou, ao menos, reduzir os prejuízos.
Durante seus mandatos, Netanyahu adotou uma política de expansão acelerada dos assentamentos israelenses na Cisjordânia, considerados ilegais pela maior parte da comunidade internacional.
Isso significa que, na prática, já não existe um território palestino contíguo. Especialistas descrevem a região como um "arquipélago" de pequenos trechos desconectados, alguns sob a Autoridade Palestina .
Eisenkot propõe conter essa expansão e combater a violência dos colonos contra a população palestina . Ainda assim, não defende a retirada total desses territórios.
Eisenkot e Netanyahu coincidem em diversos pontos. Ambos defendem, por exemplo, que Israel mantenha o controle militar e de segurança sobre a Cisjordânia. Também afirmam que Israel não deve se retirar da Faixa de Gaza até que o Hamas seja desarmado.
O mais importante é que nenhum dos dois se dispõe a discutir seriamente as reivindicações históricas dos palestinos, que incluem a criação de um Estado independente e o direito de retorno de milhões de refugiados.
Eisenkot já rejeitou publicamente, em diversas ocasiões, a possibilidade de um Estado palestino independente. Referindo-se à chamada solução de dois Estados —um para israelenses e outro para palestinos—, classificou-a como um erro grave. Após os atentados terroristas de 7 de outubro de 2023 , disse que defender essa possibilidade era um delírio.
Não está nem claro, diga-se de passagem, se Eisenkot e seus aliados conseguirão formar um governo.
O bloco de Netanyahu tem 53 assentos de um total de 120 no Parlamento. O de Eisenkot, 48. Para governar, é necessário somar pelo menos 61.
Uma maneira de resolver isso seria formar uma coalizão com os partidos árabe-israelenses Ra’am e Lista Conjunta, que tiveram um desempenho histórico nas eleições , ao conquistarem 19 assentos.
Mas Eisenkot já parece ter descartado formar um governo com os partidos árabes, o que, em si, indica que ele não está disposto a grandes rupturas com a tradição política israelense.
A solução seria uma aliança em que esses partidos o apoiariam sem, no entanto, integrar seu gabinete. Mesmo essa possibilidade enfrenta resistência por parte de alguns de seus aliados.
Outra alternativa seria atrair os partidos ultraortodoxos, tradicionalmente aliados de Netanyahu. Juntos, eles somam os 13 assentos que faltam para que o bloco de Eisenkot alcance a maioria. O preço desse apoio, porém, é alto e impopular: a dispensa dos ultraortodoxos do serviço militar.
Eisenkot tem agora 28 dias para fechar a conta, com a possibilidade de prorrogar o prazo por mais duas semanas. Se não conseguir formar um governo, o presidente Isaac Herzog poderá confiar a Netanyahu a tarefa de tentar fazê-lo.
Netanyahu, assim, ainda não está fora do baralho. E, ainda que saia de jogo, isso não terá resolvido as questões estruturais que prolongam a crise palestina.
Opositor a Netanyahu tentará formar governo em Israel sem mudar impasse palestino
Para os palestinos, é uma boa notícia que o presidente israelense, Isaac Herzog, tenha escolhido Gadi Eisenkot para tentar formar um novo governo , possivelmente substituindo o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu .