Por O Globo, com agências internacionais — Tel Aviv
30/10/2026 10h00 Atualizado 30/10/2026 16h26
O ex-primeiro-ministro de Israel e líder de centro-esquerda Yair Lapid afirmou nesta sexta-feira que a coalizão opositora conquistou uma "vitória por pontos" nas eleições realizadas na última terça-feira , após a conclusão da apuração das urnas apontar que as forças governistas ficaram com 53 cadeiras no Parlamento, abaixo das 61 necessárias para conquistar maioria. A oposição deu início a conversas sobre a formação de um futuro Gabinete, enquanto o premier Benjamin Netanyahu força uma campanha de pressão sobre a legitimidade do pleito, denunciando supostas interferências estrangeiras . Fontes israelenses apontaram que o Mossad, serviço de inteligência externa, somou-se a investigações já iniciadas pelo Shin Bet sobre o caso, ao passo que autoridades eleitorais indicam que, apesar da apuração, não há qualquer indício de "fraude sistêmica", prometendo apresentar os resultados certificados ao presidente Isaac Herzog em 4 de novembro.
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"Não é uma vitória por nocaute. É uma vitória por pontos. Essa também conta. Vitória é vitória", disse Lapid em uma publicação na rede social X, apontando que, apesar de a coalizão governista ter sido a mais votada, o grupo de Netanyahu perdeu cadeiras na Knesset (Parlamento israelense) e não pode voltar ao poder sozinha. "Agora vem a parte realmente difícil: tentar formar um governo. (...). Mas temos uma coisa que não tínhamos na manhã de segunda-feira: uma maioria israelense enorme que declarou que é isso que quer [mudança]. Então, preciso pedir algo que é difícil pedir a israelenses: paciência."
O fim da contagem dos votos, na noite de quinta-feira, confirmou o cenário que vinha se desenhando com o avançar da apuração: além das 53 cadeiras para o bloco de partidos de direita e extrema direita que apoiam o atual premier, 48 foram para a coalizão heterogênea anti-Netanyahu — que une siglas da direita à esquerda no espectro político israelense, em apoio ao ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Estado judeu Gadi Eisenkot. Os outros 19 assentos ficaram com os dois partidos árabes, que passaram a ser parte-chave da formação de um novo governo.
As projeções matemáticas, porém, são mais simples do que o cálculo político, considerando que parte da oposição — incluindo o próprio Eisenkot — demonstram resistência em governar com as coligações dos árabes-israelenses (em sua maioria, descendentes dos palestinos que permaneceram em suas terras após a fundação do Estado judeu). O ex-chefe militar declarou, durante a campanha, que não governaria com quem se opõe a denominar o grupo palestino Hamas como terrorista, mas lideranças dos partidos árabes, como Mansour Abbas (da sigla Ra'am), mantiveram otimismo com as possíveis negociações no período pós-eleitoral — definido por Lapid, em sua postagem desta sexta-feira, como "a hora do relojoeiro".
"Uma campanha eleitoral é a coisa mais extrovertida que existe. Tudo é para fora, tudo é rápido, tudo é para agora, uma manchete a cada hora. Formar um governo é exatamente o oposto. Isso se faz em salas pequenas, devagar, sem câmeras. Quem fala sobre o assunto geralmente não está de fato envolvido no processo", escreveu a liderança opositora. "Esta é a hora dos relojoeiros, não dos que batem o gongo".
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Os cálculos para formação de governo se tornaram ainda mais meticulosos em meio às alegações de fraude eleitoral levantadas pelo Likud, partido de Netanyahu, ainda durante o dia da votação, citando a prisão de supostos representantes do Ra'am que estariam envolvidos em um também suposto esquema de compra de votos, relacionando a irregularidade à participação recorde do eleitorado árabe. A narrativa ganhou força após o presidente da comissão eleitoral, juiz Noam Sohlberg, enviar uma carta ao diretor do Shin Bet, David Zini, pedindo que fosse feito "tudo ao seu alcance" para investigar "suspeitas graves" de interferência estrangeira nas eleições, dando prazo de uma semana para manifestação.
A revelação da carta, na quinta-feira, levou os partidos a rapidamente se manifestarem sobre a questão. Inicialmente, a suposta tentativa de interferência havia sido apontada como uma iniciativa do Catar, o que Doha refutou imediatamente. Meios de comunicação israelense, como o Canal 12 e o portal Ynet, noticiaram durante a tarde que o Mossad teria entrado nas investigações, e que além da influência catari, estaria em apuração a participação da Turquia na suposta ação.
Netanyahu imediatamente apontou a suposta influência externa como um "roubo nas eleições", e seu aliado de extrema direita, o ministro da Segurança Nacional Itamar Ben Gvir, pediu a prisão dos líderes das legendas árabe-israelenses. A coalizão de oposição tentou se equilibrar sobre uma linha mais delicada, indicando apoio ao esclarecimento das denúncias, mas rejeitando a anulação da eleição e exigindo o reconhecimento e nomeação dos eleitos.
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O diretor-geral interino da Comissão Central de Eleições, Dean Livne, rejeitou na noite de quinta-feira as alegações de fraude generalizada, classificando-as como "infundadas". Em uma carta a um deputado do Yesh Atid, partido de Lapid, obtida pelo jornal israelense Times of Israel, ele afirmou que "as eleições para a Knesset foram conduzidas de acordo com a lei", que a "integridade do pleito nos locais de votação foi rigorosamente preservada" e que, "até onde sabemos, não há fundamento para alegações de violações sistemáticas da integridade eleitoral". O Shin Bet, por sua vez, afirmou que a investigação sobre interferência estrangeira na votação tem "escopo limitado".
Mesmo que não causem a anulação da eleição, as alegações de fraude eleitoral se tornaram um fato político. Ainda na quinta-feira, Netanyahu afirmou que "nenhum partido sionista" poderia colaborar com os árabes-israelenses diante da suspeita de fraude — o que impediria a formação de governo opositor com maioria. A tática foi descrita por analistas como uma tentativa do premier de forçar deserções entre os deputados eleitos no campo oposicionista.
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Em contrapartida, dentro da coalizão de oposição, as sinalizações são mais diversas. Lapid afirmou que "não importa o que faça", Netanyahu não conseguiria formar governo. Também sugeriu que o bloco leal ao presidente seria na verdade de 40 deputados, não 53 — conta que excluiria duas siglas ultraortodoxas, Shas e Judaísmo da Torá Unida. Não está claro se uma estratégia seria buscar apoio entre os representantes eleitos dos partidos.
Por sua vez, o líder do Democratas (esquerda), Yair Golan, tem sido o mais vocal ao expressar apoio a um governo apoiado pelos árabes. Ativistas de esquerda fizeram um ato em frente a uma residência de Eisenkot na noite de quinta-feira, em Herzliya, pedindo para que ele negociasse a entrada das listas árabes no governo.
A expectativa é de que os resultados finais sejam apresentados no dia 4 de novembro ao presidente Herzog, e que os novos deputados sejam empossados no dia 10. É papel do presidente indicar quem será o responsável por tentar formar governo. (Com AFP e Bloomberg)
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