A Polícia Civil do Rio realizou, nesta quarta-feira, em conjunto com o Ministério Público estadual, a Operação Dominus, contra um grupo criminoso ligado ao Comando Vermelho que explorava a venda de gás de cozinha e extorquia comerciantes em comunidades dominadas pelo tráfico no estado. Doze integrantes da facção criminosa foram denunciados, entre eles, Edgard Alves de Andrade, o Doca, apontado como o “01” do Complexo da Penha, na Zona Norte da cidade.
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Os agentes cumpriram mandados de prisão e 44 medidas de busca e apreensão. A Justiça do Rio autorizou o bloqueio de mais de R$ 327 milhões em recursos vinculados aos denunciados e às empresas utilizadas no esquema criminoso. Quatro pessoas foram capturadas, entre elas, Adriano Pereira Vasconcelos Júnior, conhecido como Júnior Playboy — apontado como principal articulador e coordenador da organização criminosa que extorquia comerciantes em comunidades de Duque de Caxias, Niterói, São Gonçalo e Itaboraí — e Michel da Silva Gama, o Polegar, que, segundo as investigações, era responsável por cobrar os comerciantes.
— Era um monopólio imposto através de violência e grave ameaça. Nós identificamos vandalização de estabelecimentos, agressões físicas. Os comerciantes ficavam muito acuados — explicou o delegado Pedro Brasil. — Os butijões que são vendidos normalmente por R$ 100, nas comunidades o consumidor paga R$ 150.
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Os mandados foram cumpridos em diferentes regiões do estado, com concentração em São Gonçalo, incluindo localidades como Jardim Catarina, Trindade, Santa Luzia, Guaxindiba, Neves, Boaçu e Alcântara. As diligências também alcançam bairros de Itaboraí, Duque de Caxias e Niterói, além do Recreio dos Bandeirantes e da Taquara, na capital. Entre os endereços estão residências e estabelecimentos comerciais, especialmente distribuidoras e revendedoras de gás apontadas como integrantes ou vinculadas à estrutura criminosa. Em São Gonçalo, os policiais estiveram em um depósito de gás suspeito de ser usado no esquema. O estabelecimento não tinha autorização da Agência Nacional do Petróleo para funcionar. Vários butijões foram apreendidos.
A ação foi realizada em conjunto entre agentes da Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados (DDSD), com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público do Estado do Rio (GAECO/MPRJ). As diligências também contara com o apoio de equipes de outras unidades do Departamento-Geral de Polícia Especializada (DGPE) e da Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE).
'Metas do gás' e divisão de tarefas
A investigação revelou um esquema em que a intimidação da facção era utilizada para impor regras comerciais e controlar a venda do gás de cozinha em comunidades dominadas pelo tráfico. Em vez de permitir que comerciantes escolhessem livremente seus fornecedores, o grupo exigia a compra de gás de empresas vinculadas à organização criminosa ou o pagamento periódico de valores para que os estabelecimentos pudessem continuar funcionando, sob ameaças de retaliações. As cobranças eram conhecidas como “metas do gás” e constituíam uma forma sistemática de arrecadação de recursos para financiar a estrutura criminosa.
Segundo a polícia, o grupo utilizava o poder de intimidação da facção para impedir a livre concorrência e assegurar que a comercialização de gás nas áreas exploradas permanecesse subordinada aos interesses do bando.
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O caso vem sendo investigado desde 2024, quando a DDSD abriu um inquérito para apurar os crimes cometidos pela organização criminosa. A apuração identificou uma estrutura com divisão de tarefas e funções específicas.
Um dos núcleos era responsável pela coordenação operacional e pela interlocução entre operadores comerciais, arrecadadores e integrantes ligados ao controle territorial do Comando Vermelho. Outro, atuava na logística da comercialização do gás, acompanhando a distribuição do produto e a manutenção do monopólio nas comunidades exploradas. Também foram identificados integrantes responsáveis pela cobrança e arrecadação de valores, além de interlocutores vinculados à estrutura territorial da facção, cuja atuação contribuía para sustentar o ambiente de intimidação imposto aos comerciantes.
Os agentes ouviram testemunhas, realizaram diligências de campo e cruzamento de dados cadastrais, além de analisarem registros de estações rádio-base, interceptações telefônicas e dados telemáticos obtidos com autorização da Justiça. A análise de arquivos armazenados em aparelhos eletrônicos utilizados por um dos principais alvos também permitiu recuperar comunicações e identificar articulações entre responsáveis pela atividade comercial, arrecadadores e integrantes ligados ao tráfico de drogas.
A investigação também aponta que o principal investigado do grupo criminoso mantinha relações próximas e de confiança com chefes do tráfico: o alvo atuava na locação de imóveis para o Doca, a quem teria, inclusive, ajudado a fugir do Complexo do Alemão durante a megaoperação realizada há um ano . Além da convivência pessoal, ele também atuava prestando apoio a interesses pessoais e logísticos das lideranças do Comando Vermelho.
O investigado também mantinha uma relação de proximidade com uma liderança do tráfico na comunidade da Muzema , na Zona Oeste da cidade. Entre os elementos identificados está o convite para o aniversário da filha do traficante. Segundo a polícia, o investigado desempenhava papel relevante na conexão entre a estrutura empresarial utilizada pelo grupo e as lideranças responsáveis pelo domínio armado das comunidades.
Os policiais apuram ainda ocultação de recursos e patrimônio por meio de empresas e pessoas “laranjas”. As diligências apontaram que estruturas empresariais formalmente registradas em nome de terceiros, especialmente nos setores de distribuição de gás e construção civil, poderiam ser utilizadas para movimentar valores e dificultar a identificação dos reais controladores e beneficiários.
O cruzamento de dados financeiros, cadastrais e telemáticos apontou movimentações incompatíveis com a renda declarada de pessoas relacionadas ao esquema, al e vínculos entre empresas e interesses patrimoniais dos alvos.
Além de buscar provas e identificar outros envolvidos, a operação tem como objetivo atingir a base financeira do grupo. O bloqueio de ativos e o sequestro de bens buscam impedir a movimentação de patrimônio potencialmente relacionado às atividades criminosas e comprometer os recursos que sustentariam a continuidade do esquema.