Operação israelense desloca mais de 3 mil palestinos na Cisjordânia após morte de dois soldados em ataque

Por O Globo e agências internacionais — Hebron 26/10/2026 02h23 Atualizado 26/10/2026 12h49 A operação militar israelense lançada após a morte de dois soldados na Cisjordânia ocupada já obrigou mais de 3 mil palestinos a deixar suas casas

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Operação israelense desloca mais de 3 mil palestinos na Cisjordânia após morte de dois soldados em ataque

Por O Globo e agências internacionais — Hebron

26/10/2026 02h23 Atualizado 26/10/2026 12h49

A operação militar israelense lançada após a morte de dois soldados na Cisjordânia ocupada já obrigou mais de 3 mil palestinos a deixar suas casas na cidade de Hebron, a maior do território. A ofensiva, iniciada na sexta-feira por ordem do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu , atingiu centenas de famílias e levou à retirada de moradores de bairros inteiros. O balanço atualizado foi divulgado pela prefeitura local nesta segunda-feira, no mesmo dia em que uma comissão de investigação da ONU acusou Israel de cometer crimes contra a Humanidade na região, incluindo extermínio, tortura e estupro.

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Netanyahu anunciou a ampla ofensiva militar como “antiterrorista” e ordenou a retirada dos moradores do distrito onde viviam os autores do ataque que matou os dois soldados, de 20 e 23 anos. Forças israelenses, então, entraram no bairro de Ein Dir Baha e determinaram que os residentes recolhessem seus pertences rapidamente e abandonassem suas casas. Militares usaram alto-falantes para emitir as ordens, enquanto tropas vasculhavam edifícios.

No domingo, a Autoridade Nacional Palestina havia informado que mais de 2,6 mil pessoas tinham sido deslocadas à força, em sua maioria mulheres, crianças e idosos, citando dados da prefeitura de Hebron. O ministro da Defesa de Israel, por sua vez, afirmou que cerca de 2 mil palestinos haviam sido “retirados” durante a operação. Nesta segunda, veículos militares e soldados israelenses permaneciam nas ruas, e autoridades atualizaram o número de deslocados para 3,1 mil.

O Exército israelense também anunciou o fechamento da Cisjordânia ocupada para terça, quando Israel realizará eleições legislativas. A votação ocorre em um momento de disputa política para Netanyahu, que busca permanecer no poder . Ainda na sexta, autoridades locais no território palestino classificaram a medida como uma forma de punição coletiva, enquanto o vice-prefeito de Hebron, Khaled Fahd Qawasmi, disse ser uma “propaganda eleitoral”.

— Isso não é apenas punição coletiva, é propaganda eleitoral — disse o prefeito, em referência à proximidade das eleições israelenses.

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O deslocamento ocorre em meio ao aumento da violência na Cisjordânia ocupada, especialmente desde o início da guerra na Faixa de Gaza , em outubro de 2023. A ONU registrou mais de 1,3 mil ataques de colonos israelenses contra palestinos na região entre janeiro e o fim de julho, uma média de seis por dia, e prevê que o número ultrapasse 2 mil até dezembro. Trata-se da maior taxa registrada em duas décadas.

Segundo o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, mais de mil palestinos, incluindo 233 crianças e adolescentes, foram mortos na Cisjordânia e em Jerusalém desde outubro de 2023. Naquele mês, o grupo terrorista Hamas liderou um ataque sem precedentes contra Israel, que deixou cerca de 1,2 mil mortos e 251 reféns e desencadeou a guerra em Gaza . A ofensiva israelense no território palestino matou mais de 74 mil pessoas desde então, de acordo com o Ministério da Saúde de Gaza.

Atualmente, cerca de três milhões de palestinos vivem na Cisjordânia, ao lado de mais de 500 mil colonos israelenses instalados em assentamentos e postos avançados considerados ilegais pelo direito internacional. A expansão desses assentamentos e a violência contra a população palestina têm sido alvo de denúncias de organismos internacionais.

Também nesta segunda, uma comissão internacional independente de investigação designada pela ONU acusou as autoridades e as forças israelenses de cometer crimes contra a Humanidade na Cisjordânia. Em novo relatório, os especialistas afirmaram ter identificado práticas de extermínio, tortura, estupro, outras formas de violência sexual e perseguição contra palestinos, motivadas por fatores discriminatórios.

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A Comissão de Investigação sobre o Território Palestino Ocupado também manteve suas acusações de genocídio contra Israel na Faixa de Gaza. Segundo os especialistas, o acordo de cessar-fogo firmado em outubro de 2025 não interrompeu as práticas denunciadas. O texto diz que Israel continua “cometendo atos genocidas com a intenção genocida de destruir, no todo ou em parte, os palestinos em Gaza”.

Segundo o relatório, parte significativa dos danos provocados durante o cessar-fogo está relacionada ao avanço das forças israelenses para áreas mais profundas de Gaza. Desde a assinatura do acordo, Israel ampliou seu controle territorial de 53% para pelo menos 60% do enclave. Nesse período, disparos israelenses ao longo da linha de frente em avanço mataram pelo menos 196 palestinos, incluindo mulheres e crianças.

A comissão afirmou, ainda, ter documentado recentemente seis casos de violência sexual praticada por agentes israelenses contra palestinos presos na instalação militar de Sde Teiman. Em um dos episódios, agentes teriam estuprado um detento palestino com um bastão e, em seguida, obrigado a vítima a colocar o objeto na boca até vomitar.

A comissão afirmou, ainda, ter documentado recentemente seis casos de violência sexual praticada por agentes israelenses contra palestinos presos na instalação militar de Sde Teiman. Em um caso, uma palestina grávida teria sido submetida a uma revista íntima por agentes penitenciárias. Em outro episódio, uma detenta teria sido agredida e insultada por agentes que a impediram de usar o banheiro e de receber absorventes higiênicos. Segundo o documento, ela acabou sangrando sobre as próprias roupas e a cadeira de interrogatório.

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Israel rejeitou as acusações e pediu a dissolução da comissão. No X, a missão israelense em Genebra afirmou que o relatório faz parte de uma “campanha de desinformação para demonizar o Estado de Israel e retratar sua própria existência como criminosa”. O governo israelense critica há anos os trabalhos da comissão e nega tanto as acusações de genocídio em Gaza quanto as denúncias de violência sexual.

Os casos não puderam ser verificados de maneira independente pela imprensa. A comissão da ONU, no entanto, busca documentar detalhadamente as denúncias e reunir provas que possam contribuir para a responsabilização dos autores dos crimes. Suas conclusões poderão ser utilizadas por promotores do Tribunal Penal Internacional (TPI) ou de outras jurisdições em eventuais processos destinados a garantir justiça às vítimas e a seus familiares.

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